Site Grupo LET-
Quais foram os maiores desafios dentro do trabalho com “A
Hora da Estrela”?
Marcus Vinícius
– O maior deles foi lidar com o texto de Clarice e colocar
esse texto complexo, verdadeiro fluxo de consciência,
em ação, dando uma dinâmica única
à história. Eu não queria uma simples
interpretação, mas sim o romance propriamente
dito em cena. Outro desafio vencido foi o de valorizarmos
o papel de Rodrigo, um dos personagens principais, que é
feito por cinco atrizes.
Site – Mas há algum diferencial na
interpretação de vocês, não é
mesmo?
Marcus Vinícius –
Sim. E por uma peculiaridade interessante dessa obra. Clarice
(autora) coloca de forma clara em seu texto a incapacidade
do intelectual em compreender o povo e suas reais necessidades.
E a interpretação que damos à peça
torna isso claro pela primeira vez. Eu acho que torna essa
questão mais explícita do que a versão
de “A Hora da Estrela” que foi para as telas
do cinema (filme dirigido por Suzana Amara, 1985), porque
o cinema deixa o personagem Rodrigo de lado. Somos críticos
sobre a relação entre a intelectualidade e
a pobreza.
Site – Então vocês dão
um enfoque na questão da vida sofrida?
Marcus Vinícius –
Ao contrário. Essa visão da vida profunda
de Clarice é muito seca. Isso é proposital,
justamente para não criarmos uma visão sentimental
da obra. Fizemos uma própria avaliação
de Clarice como intelectual.
Site – Como anda a repercussão do
espetáculo por parte da crítica e do público?
Marcus Vinícius –
Estamos tendo um retorno muito bacana do nosso trabalho.
A boa receptividade da crítica tem sido bastante
importante para o nosso sucesso e para que o público
identifique a nossa relação com a obra. O
público tem gostado demais, pois estamos com casa
cheia quase todas as noites.
Site – Qual é a importância
para a direção e elenco de se contar com o
patrocínio do Grupo LET em um Brasil onde os patrocínios
para eventos culturais são sempre difíceis?
MarcusVinícius –
Muito mais do que um patrocinador ou mesmo do que um parceiro,
o Grupo LET é um aliado nosso. O Grupo LET é
uma empresa diferenciada em recursos humanos, pois desenvolve
uma política permanente de apoio à cultura
e não procura enxergar seus resultados apenas de
forma imediata. Espero que essa postura do Grupo LET influencia
fortemente a visão que outras empresas e organizações
possam ter sobre a importância de se apoiar a cultura.
O capital social é muito valioso e a cultura é
uma ferramenta imprescindível para esse capital social
e para a formação dos valores de um ser humano,
dentro e fora da empresa.
Site – Vocês já planejam os
projetos futuros?
Marcus Vinícius –
Ainda estamos lendo muitos textos e estudando quais deles
podemganhar uma boa linguagem teatral. Um dos que provavelmente
iremos trabalhar é “100 Anos de Solidão”
de Gabriel Garcia Márquez.