TENDÊNCIA
Dez-07-2009

TENDÊNCIA – Trabalho por METAS traz mais retorno às organizações
Profissional que atua apenas para cumprir horário está com os dias contados

Por Alexandre Peconick (texto) Foto: Site Sxc.hu


Em países como os EUA, o trabalho por metas tem ajudado profissionais a agregar mais valores ás organizações quando estão em casa ligados em outros temas

     Assinar ou bater folha de ponto cumprindo à risca a hora de entrada e a de saída não é uma forma precisa e nem mesmo aproximada de se medir a produtividade de um trabalhador. Esta é a conclusão da avaliação de performance de inúmeras empresas brasileiras, que está simplesmente obrigando as mesmas a se render ao trabalho por METAS.

     “Contra os números não há contestação”, disparou Marcelo Munerato, Vice-Presidentes da AON Consulting, durante um Fórum Regional da ABRH-RJ em Macaé. Ele confirma que depois que a empresa abraçou o sistema home office e o trabalho por metas semanais e mensais a cumprir, o rendimento e a satisfação dos colaboradores praticamente triplicou.

     Esclarecendo a questão; trabalhar por metas trata-se de cumprir um objetivo stabelecido, passo a passo, por um prazo (ou deadline) determinado. Não importa para isso se o profissional vai gastar 20, 30, 40 ou mesmo 10 horas. Sua eficácia e talento determinarão o tempo que ele terá disponível para outras atividades. E o tempo disponível reverte, como medem algumas pesquisas de consultorias renomadas como a Hewitt Associates, não apenas em benefício dele (profissional), mas também da empresa, uma vez que a pessoa terá mais tempo disponível para criar.

     Esta é uma notícia fantástica para a qualidade de vida e um golpe de mestre no soletismo arcaico dos sistemas de gestão mais ultrapassados que impedem organizações de crescer.

     Senão vejamos, nos últimos anos cada vez mais brasileiros estão conseguindo realizar um velho desejo: conciliar a jornada de trabalho com os compromissos e as necessidades da vida pessoal. O privilégio de passar na academia de ginástica antes do expediente, dar uma escapadinha no meio da tarde para ir ao dentista ou sair mais cedo para buscar os filhos no colégio deixou de ser exclusividade dos profissionais liberais, dos patrões ou de executivos em cargos muito elevados.

     Grandes companhias estão percebendo que abolir a rigidez nos horários de entrada e de saída aumenta a satisfação dos funcionários e pode ser uma providência fundamental para atrair e manter os bons profissionais. A tendência está se espalhando rapidamente e já atinge, em graus variados e em departamentos diferentes, 73% das maiores empresas instaladas no Brasil, de acordo com pesquisa da Hewitt Associates, uma das principais consultorias de recursos humanos do mundo. É um número próximo ao dos Estados Unidos, onde o porcentual de companhias que oferecem o benefício saltou de 50% para 80% nos últimos dez anos.

     As empresas americanas, aliás, já avaliaram o quanto funcionários têm agregado em conhecimento, novas práticas e valores quando também não passam muito tempo na empresa. Na Google, empresa conhecida por liberar o ambiente particular para que o funcionário decore como quiser, um de seus principais executivos nos Estados Unidos afirmou: “Funcionário meu que fica aqui no computador sem nada para fazer porque já cumpriu sua meta eu mando para casa; não queremos gente obcecada por horário, queremos gente realizadora de inovações e esses são aqueles que cumprem metas em pouco tempo e usam o tempo que sobrou para antecipar tendências”.

     No Brasil os avanços são animadores

     A forma mais comum de flexibilidade adotada no Brasil ainda não permite liberdade plena, mas representa um avanço significativo em relação aos tempos em que o cartão de ponto reinava soberano. Nela, as empresas oferecem alternativas ao horário padrão, sem, contudo, abrir mão do controle sobre a quantidade de horas trabalhadas. É o caso da seguradora AGF, que, em São Paulo, estipulou um horário-núcleo, entre 9h30 e 16h30, em que todos devem estar na empresa. As duas horas que restam para completar o expediente são administradas pelo próprio empregado, que pode cumpri-las pela manhã, à tarde ou simplesmente deixá-las para outro dia – desde que, no final do mês, tenha cumprido a carga estipulada.

“De acordo com os consultores está em baixa o prestígios dos viciados do trabalho

      A prática atinge empresas de todos os setores. Entre as que já têm projetos em estágio avançado estão, por exemplo, Avon, Dow Química, Xerox, Gerdau, Kodak, Levis e Algar. Porém, apesar de estar bem difundida no mercado brasileiro, a iniciativa ainda não atinge os cargos de menor remuneração.

    Na pesquisa da Hewitt, apenas 35% dos funcionários das 131 companhias que disseram empregar o horário flexível têm chance de optar pelo esquema. Boa parte deles ocupa cargos de nível hierárquico superior – diretores, gerentes e consultores. Nas posições mais simples, a possibilidade de escapar da ditadura do relógio, infelizmente, continua distante. Para diversos ramos de atividade, os especialistas em recursos humanos argumentam que a flexibilização “representaria prejuízo no atendimento ao público, no relacionamento com outras corporações ou na produção em série”. Mas a principal causa da resistência é mesmo cultural. "Muitas empresas receiam conceder liberdade plena de horário porque desconfiam que os empregados abusariam desse direito", disse Andrea Huggard-Caine, Presidente no Brasil da Hewitt.

     Nas corporações em que cada profissional tem autonomia para administrar o próprio tempo e realizar as tarefas da forma que julgar conveniente, está ocorrendo exatamente o contrário do que se temia: é comum encontrar quem trabalhe doze ou mais horas por dia. A Merck Sharp & Dohme adotou uma solução drástica: o setor de manutenção tem ordem para apagar as luzes do prédio às 10 da noite, sem verificar se ainda há alguém trabalhando. Conforme apurou a pesquisa da Hewitt, existe um tipo de funcionário que adora ficar no escritório, mesmo que o volume de serviço não exija.

     Mas, de acordo com os consultores, está em baixa o prestígio dos viciados em trabalho, que estiveram em voga nos anos 80, mas perderam fôlego desde então. Hoje, o que as empresas querem é alguém que tenha outras preocupações na vida – família, lazer, filantropia que o diga à GE Celma. “Para contratar um executivo gosto muito de saber o que ele faz nas horas de folga, pois é preciso que entendamos que o indivíduo é um ser único, seja em casa ou no trabalho e devemos valorizar muito as horas de folga dele”, ressalta Marcelo Soares, Presidente da GE Celma em evento promovido pela ABRH-RJ reunindo diversos líderes e CEOs.

      Retoma-se, assim, a tendência histórica que fez o número de horas dedicadas ao trabalho cair gradativamente no decorrer do século 20. Na década de 10, os brasileiros trabalhavam, em média, cerca de 3.000 horas por ano. Com a mecanização e o surgimento de benefícios como as férias remuneradas, esse índice caiu drasticamente. Atualmente, a média é de 2.000 horas anuais. Estima-se que um número cada vez maior de companhias evolua para formas mais sofisticadas de flexibilidade, permitindo que os funcionários trabalhem parte do tempo em casa ou reduzindo a jornada semanal para quatro dias.

      Por outro lado, o trabalho flexível e a não cobrança do sujeito ter que estar entre 9h e 18h, ou seja, dele poder entrar e sair no momento em que desejar gera outra invasão conceitual: a de que ele é um profissional comprometido durante as 24 horas do dia, já que também pode olhar e-mails e trabalhar de casa, do blackberry dentro do ônibus ou na praia. Poder escolher o horário de trabalho permite ao profissional a possibilidade de administrar o tempo e dividi-lo entre trabalho e lazer; por outro lado, como não há horário fixo este profissional é “invadido” pela demanda de trabalho à noite e em finais de semanas.

     “Profissionais estratégicos devem ter horário flexível”, diz pesquisadora


     Visando levantar reflexões sobre os ganhos e perdas para trabalhadores e organizações que criam sistemas de horários flexíveis, as professoras Luciana Mourão (da FGV) e Maria Lucia Rocha Coutinho e Maria Cristina Ferreira (do mestrado em Psicologia da Universo - Universidade Salgado de Oliveira) desenvolvem desde o início deste ano uma pesquisa no intuito de mapear quem são, como pensam e como se relacionam com o mercado esses profissionais que não batem o ponto, mesmo tendo o vínculo formal de trabalho.

     A ABRH-RJ está contribuindo, desde a recente edição do RH na Praça, com a 2ª etapa da pesquisa que busca identificar junto aos gestores de pessoas se as empresas já vêem o trabalho de horário flexível como uma vantagem ou se encaram o horário de trabalho como algo que deva ter monitoramento. Os resultados deste amplo estudo serão apresentados em junho de 2010 pela ABRH-RJ.

     As pesquisas identificam que há vários tipos de trabalhos em horários flexíveis, entre os quais podemos destacar: trabalho por metas (quem define a carga é a eficácia da pessoa em entregar resultado); trabalho em turno de horas (a pessoa escolhe o horário de início e término); trabalho comissionado (se ganha pelo que se faz) e modalidade mista (home office/escritório da empresa).

     Com mestrado em Psicologia Organizacional e do Trabalho, além de experiência no contato com empresas, a professora Luciana Mourão entende que problemas entre os profissionais de horário flexível e os de horário fixo ocorrem quando falta sensibilidade às lideranças. “Gestores precisam assumir que pessoas e funções são diferenciadas e não devem ter tratamento igual; ou seja, em geral, os profissionais estratégicos para a organização devem ter horário flexível, pois além de requererem liberdade para trabalhar, têm um alto custo de reposição em caso de perda”, esclarece Luciana. Entretanto, ter horário flexível, requer um nível de autocontrole do tempo e responsabilidade muito grandes.

     Em função da evolução dos meios eletrônicos e até mesmo de cidades com trânsito caótico, a assimilação de sistemas de horário flexíveis tem sido cada vez mais aceita por pelas organizações. A primeira fase da pesquisa sobre horário flexível de trabalho teve 380 questionários respondidos por profissionais, 50% dos quais sem hora certa para começar ou parar de trabalhar.

     “É interessante observar que aqueles que têm o horário fixo imaginam os trabalhadores de horário flexível como pessoas privilegiadas com uma mordomia, quando na prática quem não tem horário fixo trabalha até bem mais”, argumenta Luciana.

     Do outro lado da balança quem escolhe horário não precisa dar satisfação ao chefe sobre ida aos ao médico, acompanhamento dos filhos e nem mesmo se tem outro trabalho, caso consiga equacionar o fator tempo. Estes foram grandes benefícios apontados em outra parte da pesquisa que procura identificar o discurso daqueles que abraçam o trabalho em horário à sua escolha.

     E para as empresas, embora ainda aguarde o resultado do levantamento em parceria com a diretoria de Pesquisa da ABRH-RJ, a professora Luciana aponta algumas vantagens imediatas do trabalho sem hora marcada: menos pessoas perdendo tempo quando não têm nada a fazer, economia de infraestutura, maior satisfação do funcionário e maior retenção de talentos.

     Mas se o profissional tiver dificuldade em atuar sem horário fixo? O ideal, sugere a professora, é se planejar semana a semana um cumprimento de atividades em no máximo 44 horas e que nas horas restantes a pessoas realmente se desligue de qualquer ideia que remeta a trabalho. “Um problema comum é que muitos gestores que aplicam o trabalho em horário flexível o fazem por método de tentativa e erro, uma vez que não vivenciaram tal novidade”, aponta Luciana que alerta para o perigo das doenças ocupacionais caso não se consiga tempo para o lazer.

      A análise dos dados da pesquisa poderá ser, um indicador de caminhos ideais a fim de serem aprimoradas as relações que possam consolidar esta crescente visão do trabalho em horário flexível.

 

 

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