ENTREVISTA
Nov-09-2009

ENTREVISTA – Inês Cozzo – Consultora Internacional
“O Valor da Neuroaprendizagem para uma carreira de sucesso”

Por Alexandre Peconick


Inês Cozzo

     Cientificamente já está comprovado o valor das competências emocionais para o desenvolvimento de uma carreira. O SITE DO GRUPO LET traz aos internautas uma fonte de absoluta credibilidade neste tema: trata-se de Inês Cozzo.

     Diretora e sócio-fundadora da T´AI Consultoria em Talentos Humanos & Qualidade; VP da ABTD (Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento), Consultora e Palestrante Internacional, Inês também criou e atualmente conduz um grupo de estudos em Neurociências (GEN) desde 2005 em São Paulo (SP).

     Entre seus principais livros, recomendamos “Neuro-aprendizagem e Inteligência Emocional” – da Qualitymark Editora (www.qualitymark.com.br), que aqui destacamos e cujo conteúdo procuramos esclarecer.

     SITE DO GRUPO LET - Por que, na prática, no dia a dia de trabalho, a Inteligência Emocional pode ser avaliada como um elemento bem mais fundamental do que o quociente intelectual?

     Inês Cozzo - Porque por mais habilidade, conhecimento, capacidade e prática que alguém tenha naquilo que realiza, se estiver emocionalmente desequilibrado, desbalanceado, cometerá erros. Quanto mais instável emocionalmente nos encontramos, menos “rendemos”, produzimos, no trabalho. Alem disso, somos sempre escolhidos para uma vaga pelo nosso QI (currículo), mas só somos promovidos ou demitidos por nosso QE (qualidades emocionais, personalidade, relacionamento interpessoal).

     SITE DO GRUPO LET - Que exercício interessante você poderia nos contar que ajude o cérebro a “gostar de aprender” e a “gostar de criar”? Por quê?

     Inês Cozzo - Não sei se existe um exercício capaz de nos ensinar a gostar de alguma coisa. Existem exercícios capazes de nos tornar melhores aprendizes. É diferente. Também existem alguns que nos ajudam a eliminar bloqueios que nos impedem de gostar para que, pelo menos, passemos a fazê-lo sem qualquer tipo de desagrado. Não gostar é diferente de não conseguir fazer. Algumas vezes, não gostamos, ou achamos que não gostamos, apenas por acreditar que não somos capazes. Infelizmente, para uma coisa ou para outra, não são exercícios que se possa descrever. Não se os quisermos funcionais. É preciso efetivamente passar por eles. Quando ainda somos crianças, é possível fazer alguma coisa para que o desagrado em relação ao estudo nem se “instale” e a criatividade seja mantida (toda criança é criativa até que se coloque essa capacidade em dúvida). Essa é uma das “missões” da Neuroaprendizagem.

     SITE DO GRUPO LET - Um dos capítulos do seu livro fala em “administrar as emoções” como o medo, raiva, alegria e tristeza; como isso acontece na prática?

     Inês Cozzo - Vou mesclar dois exemplos em um através de um exercício hipotético. Você descobre que seu/sua melhor amigo/a no mundo está “dando em cima” da/o sua/seu mulher/marido descaradamente. Qual é a emoção mais forte, principal ou marcante que você tem? Sempre que faço essa pergunta em cursos, seminários, palestras ou workshops, as pessoas me respondem praticamente sem pensar: Raiva. Vamos pensar um pouco pela ótica da Neuropsicologia. As emoções Básicas: Medo, Amor, Raiva, Tristeza e Alegria têm funções importantes para nossa sobrevivência. A Raiva, por exemplo, tem a função de nos fazer reagir quando atacados ou ameaçados, produzindo e injetando um neurotransmissor chamado adrenalina em nossas extremidades para que ataquemos ou fujamos do agressor.

     SITE DO GRUPO LET - Exemplifique situações que comprovam ser tal “administração” realmente possível.

     Inês Cozzo - A situação hipotética que apresento, tem como principal componente a perda. Você está prestes a perder a pessoa que você ama (caso ela corresponda às investidas do/a seu/sua amigo/a), com certeza já perdeu a confiança neste amigo/a e, porque ele/a era a pessoa em quem você mais confiava no mundo, durante algum tempo, muito provavelmente, vai perder a confiança em quase todo mundo. Ora, a emoção que administra perdas é a Tristeza não a Raiva. E os mecanismos que nos auxiliam nessa administração são o choro e o recolhimento. Se acreditarmos que é Raiva o que estamos sentindo, chingaremos, brigaremos, falaremos mal dessa pessoa que nos enganou para todo mundo que conhecemos, poderemos até agredi-la fisicamente, mas isso não significa que nosso mal-estar desaparecerá porque não é isso que está nos incomodando. Enquanto não chorarmos tudo que tivermos para chorar, enquanto não nos “retirarmos” um pouco do mundo pra nos refazer dessa experiência, não estaremos “curados” dela.

     SITE DO GRUPO LET – Mas o que você quer dizer exatamente com isso?

     Inês Cozzo - O que quero dizer é que nem mesmo sabemos a diferença entre emoções e sentimentos. Não sabemos o que são nem quais são as emoções e pra que servem. Se não fomos educados para identificá-las, como sabemos administrá-las? Ainda tem gente que acredita que dando socos em almofadas, vai liberar a raiva que sente e várias pesquisas já provaram que isso não resolve. Administrar implica em reconhecer e permitir que os mecanismos existentes em nosso sistema nervoso para tanto façam seu papel de “curadores”. Para isso, primeiro precisamos diferenciar o que é parte do sistema (emoções) e o que é culturalmente aprendido (sentimentos).

     SITE DO GRUPO LET - Em sua opinião, por que muitos profissionais hoje têm extrema dificuldade em “acessar” mecanismos da Inteligência Emocional?

     Inês Cozzo - Porque eles não nos foram ensinados depois de terem sido bloqueados, durante décadas, por diversos mecanismos sociais chamados “etiqueta”, “educação”, “polidez” e “sociabilidade.” Veja, ainda existem homens com dificuldade de manifestar Amor (ou você vê com freqüência homens suspirando pela pessoa amada e em grandes e efusivas manifestações amorosas?), Alegria (homens em geral precisam beber umas sete ou 10 pra se permitirem rir à toa e falar bobagens sem compromisso, não é assim?), Medo (homem foge de barata porque tem nojo, nunca medo, certo?) e Tristeza (homem não chora, está com conjuntivite, eu acho. Ou meio resfriado...). Da mesma forma, existem ainda mulheres que acreditam que “meninas boazinhas não explodem” (Raiva). Isso pra falar só da administração das emoções Básicas, mas Inteligência Emocional é muito mais do que isso.

     SITE DO GRUPO LET - Qual é a principal função dos jogos que você propõe quanto à intensidade de consolidação do aprendizado? Aprender jogando, realmente é mais eficaz ou foi apenas um dos caminhos que você buscou em seu trabalho?

     Inês Cozzo - A principal função dos jogos, dinâmicas, vivências e exercícios estruturados utilizados em neuroaprendizagem é fazer com que o elemento motor esteja presente. Toda aprendizagem pra ser efetiva, precisa ser Cognitiva (acesso a dados, informação e conhecimento), Afetiva (aprendo porque amo. Ou eu amo o que estou aprendendo, ou quem está me ensinando ou alguém que ama isso) e Motora (Saber e não fazer, ainda é não saber). Aprender jogando e vivenciando os conceitos é a única forma de aprendizagem real que existe. Pense em como você aprendeu a andar, por exemplo. Teve aulas? Leu livros? Manuais? Assistiu palestras? Participou de alguns workshops? Ninguém, no mundo, nos ensinou a andar e nós nem temos noção da complexidade que essa habilidade/capacidade exige – há décadas se tenta “ensinar” robôs a andarem em duas pernas, mas o fato é que aprendemos sozinhos, através de nossos próprios jogos de “brincar” de cair e levantar.

     SITE DO GRUPO LET – “Brincar”?!

     Inês Cozzo - Na verdade, criança nenhuma “brinca”. Elas se socializam e se preparam para o futuro. Nós é que dizemos que elas estão brincando, por isso elas dizem que estão brincando. A menina não brinca de boneca. Ensaia paciência, cuidados e atitudes que terá quando vier a ser mãe. Não damos carrinhos às meninas e, mais tarde, as criticamos por não terem boa noção de espaço quando estão no trânsito (inteligência espacial). Não damos bonecas aos meninos e, mais tarde os criticamos por não serem pacientes e cuidados/amorosos com seus filhos ou crianças em geral. O Oswaldo Montenegro diz numa de suas canções: “Você me disse que o meu olho é duro como faca. Acho que é sim. Como é duro o tronco da mangueira onde você precisa encostar.” Ensinamos os meninos a serem “machos” ou simplesmente afastamos deles o universo amoroso que as meninas têm com suas bonecas, para que se sejam homens “fortes” e depois os acusamos de insensibilidade. Não acho isso lá muito justo. Você acha?

     SITE DO GRUPO LET – Certamente não é...

     SITE DO GRUPO LET - Fale sobre o algo a mais que o trabalho com Neuroaprendizagem pode trazer ao universo das organizações. Em que aspectos exatamente o profissional ganha? Na concentração, na capacidade de criar? Por quê?

     Inês Cozzo - O profissional ganha naquilo que o programa estiver se propondo a oferecer como ganho. Se for motivação, então é isso que o profissional ganhará. Se forem habilidades de liderança, esses serão os ganhos e assim por diante. Mas serão ganhos efetivos e não meros “faz-de-conta”. Não se ensina nada teoricamente. 100 lições teóricas de como andar de bicicleta? Brinca meu amigo Guilhermo Santiago. Infelizmente não. Você pode ler, mas logo terá que praticar para, de fato, transformar essas informações em sabedoria (saber = sapere = sabor, saboroso, algo que passou pelo corpo, pelo sistema nervoso; algo que suas células absorveram e registraram). Você já se perguntou por que as “aprendizagens” da escola não estão acessíveis à sua memória hoje? As pessoas dizem que não se lembram mais do que estudaram porque faz muito tempo. Sei... e andar você aprendeu ontem, né? Dizem também que esqueceram porque têm péssima memória. Na verdade elas esquecem porque têm uma excelente memória que sabe diferenciar o que é importante daquilo que não lhes interessa e não merece ocupar espaço no “cache”. Melhor becapear e arquivar num cantinho bem lá no fundo. O ganho para as organizações será a mudança efetiva de comportamentos improdutivos, por vezes, até mesmo destrutivos, em comportamentos produtivos e saudáveis.

     SITE DO GRUPO LET - E o profissional que foca em realizar as dicas de seu livro independente do estímulo externo de um gestor, o que ele mais tem a ganhar para a sua carreira?

     Inês Cozzo - A consciência de que está indo na direção que lhe interessa. Caso a organização não lhe dê a carreira que deseja, consciente disso, o profissional estará seguro de si, autoconfiante e capaz de reivindicar isso por seus méritos (auto-desenvolvimento) ou de ir buscar sua felicidade em outro lugar.

     SITE DO GRUPO LET - Que tipos de exercícios de Neuroaprendizagem você indicaria para quem precisa recrutar com alto índice de assertividade um executivo para cargo de gerência? Por quê?

     Inês Cozzo - A Neuroaprendizagem não é um conjunto de técnicas, mas uma metodologia. Não tenho exercícios para indicar. Uma das razões pelas quais há tão poucos profissionais realmente capacitados nela é justamente a de que nada que vale a pena aprender pode realmente ser ensinado. Paradoxal, não? Mas é verdade. O que posso fazer, e faço, com o GEN (Grupo de Estudos de Neurociências com foco em Neurobusiness) é criar um ambiente propício à aprendizagem e à aquisição dessas competências. Como o mestre de natação Zen, Kan-Ichi Saito ”Eu não ensino e não mando. Ensinando sai cópia. Mandando sai escravo. Eu transmito meu espírito.” Neste caso, o espírito da Neuroaprendizagem.

     SITE DO GRUPO LET - Por que certos exercícios podem aumentar o grau de Inteligência Emocional?

     Inês Cozzo - Porque, como toda e qualquer aprendizagem, é com a prática que vem a excelência. E, você sabe, o bom é sempre bem vindo, o ótimo aumenta a produtividade e, consequentemente a lucratividade e a rentabilidade do negócio, mas só a excelência faz história.

     SITE DO GRUPO LET - Cite um exemplo do sucesso de um cliente seu em sua performance após um trabalho com Neuroaprendizagem, explicando qual era o patamar em que se encontrava antes do trabalho e qual o up grade que atingiu após o mesmo.

     Inês Cozzo - É o depoimento de Jorge Emanuel Reis Cajazeira, Ph.D., Executivo de Competitividade da Suzano Papel e Celulose e também o Presidente Mundial da ISO para Responsabilidade Social, que conta que “Trabalhamos juntos desde 1998 e essa parceria rendeu dois Prêmios Nacionais da Qualidade”. O PNQ é o prêmio mais difícil de se obter e o único que nos dá credibilidade no exterior.

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