ENTREVISTA ESPECIAL – Myrna Brandão
Jul-06-2009

ENTREVISTA ESPECIAL – Myrna Brandão – “Cinema aproxima gestores do entendimento da realidade do mercado”

Por Alexandre Peconick (texto e fotos)


A jornalista Myrna Brandão durante sessão de autógrafos do livro “Leve Seu Gerente ao Cinema” pela Qualitymark Editora

    Para se conhecer o mercado recorremos aos livros, vamos a eventos, batemos papos, mas assistir a filmes tem sido uma forma extremamente eficaz e que vem se disseminando com clareza e força nas organizações. A jornalista, socióloga e gestora de pessoas Myrna Brandão tem sólidos subsídios para crer na validade da linguagem do cinema como mola desenvolvedora de pessoas e despertadora de percepções para Recursos Humanos.

    Autora pela Qualitymark Editora (www.qualitymark.com.br) do livro “Leve Seu Gerente ao Cinema – Filmes que Ensinam” – com a 2ª edição publicada neste ano de 2009, Myrna atua como jornalista na cobertura de inúmeros dos principais festivais de cinema do Brasil e exterior publicando seu trabalho no Jornal do Brasil, na Gazeta do Povo (Curitiba-PR) e diversos sites. Seu passaporte tem carimbos cobiçados por cinéfilos, como os de Berlim (Alemanha), Sundance (Utah – EUA), Nova Iorque (EUA), Roma (Itália), Viareggio (Itália), Bari (Itália), entre outros. Boa parte de seu tempo ela passa em aeroportos e hotéis, mas adora: “é importantíssimo conviver a aprender com todos os tipos de culturas”, argumenta Myrna, que também é Diretora de Cultura da ABRH-RJ.

    Criado em 1895 por Luis Lumiere, o Cinema sempre teve o dom de acompanhar e se antecipar às novidades nas relações humanas. Myrna acompanha a tudo isso entrevistando diretores, produtores, atores com o mesmo aguçado senso crítico com o qual também atua à frente da presidência do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro e à diretoria da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (RJ).

    SITE DO GRUPO LET – O que fez você ligar o Cinema à Gestão com Pessoas (ou Recursos Humanos)?

    Myrna Brandão – Inicialmente o que me motivou foi a paixão pelo Cinema desde muito jovem. Isso devo à minha avó que viveu em uma época totalmente diferente. Ela vinha aos cinemas da Cinelândia (Rio), como o Plaza, o Odeon, o Metro e assistia desde a sessão das duas até a das oito. Conversava muito com ela sobre cinema. E quando comecei a trabalhar fui para as áreas de Treinamento e Desenvolvimento, dentro de Recursos Humanos. Aos poucos aprendi que mais do que lazer, entretenimento e uma indústria poderosa, o cinema é muito aprendizado e fonte de desenvolvimento. O Cinema pode tratar com profundidade qualquer tema. Muita coisa que já vimos no cinema hoje são realidades como os robôs ou os cenários de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. O robô que surgiu pela primeira vez em “Metrópolis (1927)” hoje é a mais pura realidade.

    SITE DO GRUPO LET – Então os diretores de cinema são também grandes estudiosos da realidade e das relações humanas. Eles de fato se preocupam com a evolução humana?

    Myrna Brandão – Eles são muito focados nisso. Inclusive um ponto que me ajuda muito a desenvolver estes trabalhos é o fato de estar sempre viajando muito pelo exterior e Brasil. Tenho conversado com inúmeros deles. Fico até impressionada com alguns deles. Dou aqui, o exemplo de um deles, o francês Laurent Cantet, com quem estive em 2003, está se dedicando praticamente aos filmes ligados a temas do mercado de trabalho, do desenvolvimento de pessoas e da Educação. Um dos filmes que ele fez chama-se, traduzido, “Recursos Humanos”. Depois ele fez o filme “Agenda”, que em francês é “emprego do tempo”, um enredo interessantíssimo sobre o desemprego. E ele me disse em entrevista que observou muito que uma pessoas que de repente perde o emprego, ou seja, é demitida fica com a agenda totalmente vazia. É um choque alguém que sempre teve agenda cheia estar com a agenda vazia da noite para o dia. O filme explica como uma pessoa pode lidar com esta questão e dar a volta por cima. Este filme é inspirado em um fato real, no qual o personagem Vincent reage inicialmente muito mal à demissão. Primeiro porque esconde em casa. Sem coragem de dizer em casa, ele sai todos os dias fingindo ir trabalhar, quando na verdade está indo procurar emprego. Na medida em que não vai encontrando ele muda alguns valores. E ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes (França) pelo filme “Entre os Muros da Escola”. E Cantet também trata de questões como a dignidade humana, assédio moral, temas diários de RH.

    SITE DO GRUPO LET – Você lida com um universo muito grande de culturas. Para onde caminha a linguagem do Cinema e se esta linguagem está de fato cada vez mais próxima das organizações?

    Myrna Brandão – A linguagem do cinema está cada vez mais se voltando para um cinema próximo ao real. Nesse sentido, ela (a linguagem) caminha de encontro às organizações. Até o Festival de Sundance que costumo cobrir e que é criação do ator Robert Redford, aliás, o próprio costuma dizer logo na abertura todos os anos, “se você quer saber como está o mundo, então vá ao cinema”. O Cinema, como arte está cada vez mais próximo à verdade dos documentários. Mas independente disso, o texto e roteiro de cinema da ficção, mesmo quando não são baseados em um fato real, procuram retratar situações que espelham a vida real, seja na vida pessoal ou profissional. Basta citar o filme “O Método (2007) - do espanhol Marcelo Piñeyro” que trata de processos seletivos. É um filme muito real nas cenas que mostra.

    “O Cinema mostra também aos candidatos que o item CONFIANÇA é hoje primordial em qualquer tipo de relação”

    Myrna Brandão

    SITE DO GRUPO LET – Como na prática um gestor pode se utilizar determinada ferramenta de um filme para mostrar à sua equipe como se dará o desenvolvimento de uma determinada competência?

    Myrna Brandão – Costumo dizer que a melhor forma é passar um filme inteiro para seus colaboradores. O Cinema é uma atividade orgânica, de equipe. É muito trabalhoso se fazer um filme. Vocês não têm idéia como uma equipe se reúne atores, cinematógrafos, continuístas, diretores, câmeras, maquiadores, diretor da trilha sonora. Então tirar apenas uma cena do filme é como se tirasse um parágrafo de texto. Fica sem contexto. Deve-se passar um filme em torno de um tema, como “Liderança”, “Cultura Organizacional”, “Gestão de Talentos”, “Motivação”, “Hierarquia”, enfim, é preciso ter em mente um tema. É legal deixar os espectadores livres para a sua análise conforme seus valores, seus padrões de vida, seus conceitos, seus até pré-conceitos. O retorno de um debate sobre um filme conectando com seus cotidianos de trabalho e vida pessoal é sempre riquíssimo. No caso da necessidade de selecionar cenas, deve-se fazer com que o ponto central do filme não seja desvirtuado. No caso do último Cine Fórum, quando exibimos no Congresso RH-RIO 2009 o filme “Orquestra dos Meninos”, o diretor Paulo Tiago viu que o ponto central permaneceu intacto. É importante que o gestor faça uma boa sinopse do filme para facilitar sua análise.

    SITE DO GRUPO LET – Que resultados você têm observado em diretorias ou gerências de RH de organizações que utilizam o Cinema como uma ferramenta de auxílio para o trabalho de gestão?

    Myrna Brandão - O Cinema é uma atividade lúdica, mágica. Tem a capacidade de influenciar muito o comportamento humano. Já foi utilizado pelos americanos na época da 2ª Guerra Mundial, quando as autoridades queriam justificar para a população a necessidade de haver a guerra. O cinema gera tendência e lança modas. Por exemplo, a mala do agente 007 que começou com James Bond. Há inúmeros outras formas de influenciar pessoas. O Cinema tem influenciado a troca de experiência nas empresas. Também tem proporcionado grande integração entre as pessoas.

    SITE DO GRUPO LET – Os gestores têm se queixado que o mercado atual está carente de formação de novas lideranças. Existe algum novo filme que trabalhe a questão “Liderança” de forma a motivar o surgimento e desenvolvimento de líderes?

    Myrna Brandão – Existem centenas de filmes que tratam sobre “Liderança”. Entre os filmes atuais posso citar o “Momentos Decisivos”, muito propício para se trabalhar as nuances do conceito de Liderança. Nem sei quantos eu poderia te dizer agora. E há filmes como “Abril Despedaçado”, do Walter Salles Jr. que mostram o mal de uma liderança autoritária. Ou seja, educa pela antítese, ou seja, mostra como fazer, exibindo antes o como não fazer. Fico pensando em o que se espera de um líder hoje que deve conduzir a empresa de uma forma sustentável, sempre motivando seus colaboradores. As lideranças estão mudando de acordo com o mundo em que vivemos. As pessoas não são mais tão passivas. O líder hoje tem que ser o líder de si mesmo e também deve permitir que as pessoas se auto-liderem. Também há a questão da humildade do líder servidor. Líder também tem que admitir que aprende ao mesmo tempo em que ensina. Todo mundo em uma empresa tem uma função importante e as inteligências são múltiplas. Charlie Chaplin já mostrava em “Tempos Modernos” o empregado apenas como peça da engrenagem. Hoje ele continua peça da engrenagem, mas é muito mais do que isso.

    SITE DO GRUPO LET – Gerente que são apaixonados e que entendem a linguagem do Cinema como algo que traz ensinamentos para suas vidas podem ser líderes mais flexíveis em seus ambientes de trabalho?

    Myrna Brandão - Acredito que sim, mas nem somente o Cinema faz esta sensibilização ou este despertar, mas outras expressões da arte também como o Teatro, a Música, a Dança, a Literatura. A Poesia. Cada vez mais os arcabouços culturais sustentam a possibilidade da criatividade e inovação humana. Em um mundo globalizado, multicultural, devemos aprender como as culturas se posicionam, como vêem determinados assuntos. Tenho visto muitos gerentes de empresas que viajam a outros países e por vezes a missão não dá certo por um problema cultural, porque ao ferir algum ponto de uma cultura o diálogo com aquelas pessoas já vai ficar mais difícil. As artes integram e facilitam o diálogo.

    SITE DO GRUPO LET – Um determinado gerente de uma empresa começa a desenvolver relações comerciais com a Turquia. Se antes de um diálogo com um profissional turco ele assistir a um filme sobre aquela realidade isso vai contribuir para o sucesso da empreitada?

    Myrna Brandão – Exatamente isso. Se ele verificar como as pessoas de lá se posicionam estará melhor preparado para fazer um bom negócio porque felizmente os seres humanos são extremamente diferenciados. Aqui no Brasil mesmo há diversas culturas; a do Nordeste, por exemplo, em nada tem a ver com a do Rio Grande do Sul.

    SITE DO GRUPO LET – Você citou o Brasil; o nosso cinema tem se transformado muito positivamente. Como você vê esse crescimento do cinema que tem trazido cada vez mais brasileiros às salas de exibição?

    Myrna Brandão – Acho que o cinema brasileiro está em um ótimo período em termos de produção. Temos diretores novos de muito talento, como o Alberto Brandt, Claudia Assis e os mais antigos continuam criando muito como o Walter Salles, o Paulo Thiago e muitos outros. Mas falta ao cinema brasileiro uma melhor distribuição da exibição. Cerca de 90% das telas brasileiras são ocupadas pelos filmes americanos. Este é um problema sério. Os espectadores brasileiros devem se ver na tela. Isso é importante.

    SITE DO GRUPO LET – E como mudar isso?

    Myrna Brandão – Isso tem sido uma luta! Além de ser jornalista sou Presidente do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro que tem os objetivos de apoiar, de estimular e de preservar o cinema nacional. Estou envolvida em muitos painéis sobre o tema. Um filme americano chega às telas com 500 cópias; já um brasileiro, na melhor das hipóteses, alcança 40 cópias. Há diretores que só tem uma cópia para exibir. Uma cópia de 35mm está em torno de R$ 6 mil. Então fica muito difícil disseminar a exibição. A Lei Rouanet ajuda, mas não basta. Embora o cinema brasileiro tenha diversidade de temáticas, alguns diretores estão partindo para alternativas como as parcerias com entidades internacionais, como é o caso do Fernando Meirelles com “Ensaio sobre a Cegueira”.

    SITE DO GRUPO LET – Além dos gestores, nós do Grupo LET temos nos candidatos em processos seletivo uma grande fatia de nosso público. Para essas pessoas que contribuições comportamentais interessantes o Cinema pode trazer para serem usadas no momento de uma entrevista, por exemplo?

    Myrna Brandão – Muitos filmes abordam o processo seletivo, como “O Método”, que já citei. Mas há um recente que acho maravilhoso: “À Procura da Felicidade”, de Gabriele Muccino (do original The Pursuit of Happyness com tocante interpretação de Will Smith). Neste filme há uma cena muito interessante sobre processo seletivo que sugere ao candidato o máximo possível de sinceridade, jamais tentando se fazer passar por quem não é. Mostrar o conhecimento daquela empresa que ele está buscando e também uma cultura geral. Hoje em dia, como dia Edgard Morin, tudo está interligado, não existem mais saberes desconectados. Assistir a cenas de cinema também podem desestressar candidatos. Principalmente aquelas ligadas a fatos reais. O Cinema mostra também aos candidatos que o item CONFIANÇA é hoje primordial em qualquer tipo de relação. E este item deve se estabelecer já em uma entrevista inicial. Se oi gestor sente que pode confiar na pessoa que está entrando na empresa este já é um ótimo começo. Usarei este filme “À Procura da Felicidade” em um dos próximos eventos da ABRH-RJ ligados ao tema Felicidade com Trabalho.

    SITE DO GRUPO LET – Para finalizar gostaria de saber se você tem percebido um aumento do interesse dos gestores pela linguagem do Cinema dentro de seu trabalho nas organizações?

    Myrna Brandão – Penso que esse tipo de interesse tem aumentado muito tanto no Brasil como no exterior. Tanto é que vou fazer uma palestra na APG - Associação Portuguesa de Gestores em Lisboa sobre as aplicações do cinema na gestão. O cinema de fato aproxima os gestores da realidade no mercado; desperta e motiva eles de uma forma rápida e englobando quase todas as outras artes.


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