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| Entrevista especial
– Carlos Lyra |
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Dez-22-2008 |
Entrevista especial –
Carlos Lyra Leia versão completa da
entrevista em que NEWSLET nº12 homenageia os 50 anos da
Bossa Nova |
| Por Alexandre Peconick (texto) /
Foto: Magda Botafogo |

Carlos Lyra posa em frente à entrada de
seu prédio em Ipanema |
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Bossa Nova e RH, mas o
que podem ter em comum?! É até natural que muitos
gestores, especialmente aqueles que têm menos de 45
anos, se perguntem isso ao deparar com um tema destes em um
site de RH.
Mas a vivacidade e o ritmo imprevisível das letras
de Bossa Nova influenciaram muito não somente as artes,
mas também o aprenda-fazer das organizações
em tempos de revolução social no mercado de
trabalho.
Em meio a tantas homenagens que a Bossa Nova recebe no ano
em que completa cinco décadas (ou meio século),
a revista NEWSLET / SITE DO GRUPO LET foi “beber conhecimento”
em sua fonte, o que nos colocou ao lado de Carlos Eduardo
Lyra Barbosa, ou Carlos Lyra, um mito.
Nascida em meio à classe média, a Bossa Nova
aprimorou a qualidade de formação da opinião,
bem como com a formação do jeito de se lidar
com pessoas.
Canções como “Primavera”, “Coisa
Mais Linda”, “Quando Chegares” e muitas
outras tratam de pessoas, de relações. “O
Tom (Jobim) é que gostava dessa história de
barquinho, praia, céu, montanha; não tenho nada
contra estes temas, mas minhas músicas sempre cuidaram
de pessoas”, ressalta diz Lyra.
Aos 69 anos ele fez muito mais do que dezenas de discos (entre
CDs e vinis), três livros e uma filha, Kay Lira, de
36 anos. Considerado “um dos maiores melodistas de todos
os tempos” pelo amigo Vinícius de Moraes e “uma
figura elegante e ímpar” por Tom Jobim, Carlos
Lyra escreveu (e ainda escreve) – ao lado destes dois
ícones citados e mais Ronaldo Bôscoli, Baden
Powell, João Gilberto e Nara Leão - com tintas
carregadas a história cultural brasileira.
Senão vejamos: levou a Bossa Nova aos Estados Unidos
e depois ao México e Japão; fundou o Centro
Popular de Cultura da UNE; uniu o samba de morro ao “samba
de apartamento” com Zé Kéti, João
do Vale, Nelson Cavaquinho e Cartola facilitando a criação
de uma MPB brasileira; tocou ao lado de Stan Getz, legenda
do jazz americano popularizando bossa nova entre os ianques;
musicou Millôr Fernandes, Lope de Veja e Dias Gomes
para citar alguns; fez música para filmes premiados
e foi gravado por centenas de músicos, compositores
e intérpretes em todo o mundo.
E hoje ainda compõe muito para inúmeros intérpretes.
Sua agenda está sempre lotada. Com tudo isso, Carlos
Lyra não está nas rádios e TVs por aqui.
“Lírico”, como o sobrenome, ele não
se confessa magoado, mas solta o verbo para falar do “aculturamento”
atual. Leia aqui, em versão integral, porque ele e
os 50 anos da Bossa Nova tem, de fato, tudo a ver com RH.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – A Bossa Nova nasceu
e deixou marcas profundas no comportamento humano. De que
forma a Bossa Nova hoje se eterniza neste comportamento?
Carlos Lyra –
Chamo a Bossa Nova de um surto cultural decorrente de um movimento
econômico importante da época de Juscelino Kubitschek,
que veio para fazer uma revolução dentro da
economia brasileira. Havia uma tranqüilidade política
muito grande como nunca mais tivemos até os dias de
hoje. O clima era muito favorável ao surgimento da
Bossa Nova e não apenas a ela, mas ao cinema novo.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - Mas o quê está
inserido na Bossa Nova que tanto muda a cabeça das
pessoas, a forma de se fazer as coisas?
Carlos Lyra –
Mudou ao injetar muito otimismo nas pessoas. Com aquela tranqüilidade
política no Rio de Janeiro, capital política
da época, isso gera inúmeros surtos culturais.
“Bossa” era um jeito novo de fazer as coisas.
Que, aliás, não é nada de novo. Machado
de Assis no romance Helena já dizia que “tu tens
a bossa das viagens e eu tenho a bossa no casamento”.
A “bossa” sempre foi uma coisa ousada de fazer
algo. Éramos garotos, eu e Ronaldo Bôscoli, Roberto
Menescal e Nara Leão, em 1957 quando fomos fazer um
show gratuito no clube Hebraica a reboque da Sylvinha Teles,
que era mais conhecida. Não tinha ainda Tom Jobim,
João Gilberto e Vinícius de Moraes. Eram todos
garotos universitários. Só tínhamos um
jeito de fazer música. Tocávamos no Clube Leblon
e em outros clubes. Lá na Hebraica um rapazinho com
inequívoco talento para a publicidade colocou em um
quadro negro “Hoje: Sylvinha Teles e os Bossa Nova”.
E foi a primeira vez que se usou o termo Bossa Nova que surgiu
por acaso. Eu perguntei a ele “o que era isso de Bossa
Nova” e ele me respondeu: “Ah, foi um termo que
bolei para vocês”. Ando procurando esse rapazinho
e não encontro. Parece que ele está em Israel.
Aí o Bossa Nova ou a Bossa Nova pegou.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - E o quê de fato inspirava
esse “surto” da Bossa Nova?
Carlos Lyra –
O que inspirava era a realidade econômica que não
afobava ninguém. A classe média tinha uma calma
absoluta. Não era a classe média achatada que
vemos hoje. Hoje temos uma economia bastante forte, mas quase
sem classe média. E foi a classe média quem
criou toda a cultura da época. Foi a classe média
quem fez a Bossa Nova; o Cinema Novo, com Cacá Diegues,
Glauber Rocha, com Leon Hirschmann; a classe média
quem fez o Teatro de Arena. E até certo ponto, foi
a classe média quem deu vulto aos primeiros grandes
esportistas brasileiros. Tudo dentro de uma época onde
o Brasil dava as cartas culturais.
Um de nosso precursores que já ouviam o jazz americano
era o fabuloso jornalista Antônio Maria, que chegou
a escrever uma letra que dizia assim “ser ou não
ser, há de ser sempre sempre a questão”.
Era um samba-canção inspirado em Shakespeare
com toque brasileiro.
SITE DO GRUPO LET/ NEWSLET – Mesmo essa classe
média de hoje não sendo nem sombra do que era
a classe média dos anos 50 e 60 de que forma a Bossa
Nova se eterniza hoje?
Carlos Lyra –
Ela mostra sua marca porque a classe média apesar de
tudo o que ela está sofrendo, massacrada, continua
sendo detentora de cultura universitária, de Educação.
A Bossa Nova valoriza muito a forma de como se trabalha qualitativamente
a informação. Quer dizer, é muito difícil
ser Bossa Nova se você nasce na favela. Pode fazer samba-enredo,
pagode, o que você quiser. Mas não vai fazer
Bossa Nova se não tiver ido ao colégio, à
universidade e se não tiver berço. Há
que se ter uma ilustração, freqüentar cinemas,
teatros. Não dá para fazer Bossa Nova sem este
tipo de estofo. Hoje a Bossa Nova é a música
brasileira mais aceita no exterior.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – E por que isso acontece?
Por que ela é mais tocada do que o samba ou a MPB e
o pagode, por exemplo?
Carlos Lyra –
A explicação é a mais simples do mundo.
Por ser uma música de classe média, a Bossa
Nova tem uma capacidade de se comunicar horizontalmente com
qualquer classe média do mundo. E nem tanto de se comunicar
verticalmente com o nosso próprio povo. Faço
shows freqüentes, por exemplo, no Japão onde a
Bossa Nova é adorada. O nosso povo não alcança
a classe média como a classe média do mundo
alcança.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – E por que quase
não ouvimos Bossa Nova nas rádios brasileiras?
Seria uma atitude comercial?
Carlos Lyra –
Não. É uma ignorância do Brasil, porque
toca nas rádios dos Estados Unidos, América
Latina, Europa e Japão o dia inteiro. Não toca
nas rádios do Brasil porque somos precários
em cultura. E não é problema do brasileiro não
ter memória; não tem é cultura. Infelizmente
90% dos brasileiros são destituídos de cultura,
de informação.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Conversei em uma ocasião
com um gestor de pessoas de uma empresa, que tem hoje entre
50 e 60 anos, que me relatou ter a Bossa Nova mudado muito
as relações de trabalho. Como isso aconteceu?
Carlos Lyra –
A Bossa Nova evidentemente oxigenou a cabeça das pessoas.
Um estilo musical carregado de forte cabedal cultural tem
que interferir em tudo onde haja informação.
E isso aconteceu, sobretudo no meio das empresas, mas também
na publicidade. A Bossa Nova se eterniza porque não
se restringe à música em si. Por ser uma música
de classe média ela dura 50 anos e vai resistir outros
50; já o tropicalismo não durou três.
Porque a Bossa Nova nasceu em uma época genial. É
muito fácil para a publicidade e os Recursos Humanos
se apropriarem positivamente de elementos da Bossa Nova porque
a Bossa Nova nasceu para cuidar de pessoas. Todos os setores
do pensamento humano que se comunicam entre si, são
de classe média; então, por exemplo, a publicidade
não pode prescindir de RH, que não pode prescindir
de Economia, e por aí vai. Todos conversam entre si
e vêem na Bossa Nova uma fonte inesgotável.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – No seu caso, você
que estudou em um colégio como o Santo Inácio,
a convivência com adolescentes que bebiam cultura na
fonte, esse brain storm diário, também gerou
muitas letras as quais você expandiu para o mundo?
Carlos Lyra –
Com certeza! Essa comunicação era constante.
Buscávamos nos aproximar de outros jovens que pensassem
da mesma maneira. As pessoas se procuravam para trocar idéias,
para aprender com outras. Pelo Santo Inácio passaram
o Jacques Klein, o Edu Lobo, o Cacá Diegues, Fernando
Barbosa Lima, passou todo mundo que formou opinião
na cultura brasileira. Depois conheci o Roberto Menescal.
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“Antes de o Tom Jobim (na foto à esquerda)
morrer já estava indignadíssimo com os rumos que
tomavam a nossa música, conversei isso com ele pouco
antes de seu falecimento” -
Carlos Lyra |
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SITE DO GRUPO LET
/ NEWSLET – Recursos Humanos vive buscando fórmulas,
equações para unir competências. O jornalista
Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio, cita
que você unia como poucos ação, sentimento
e talento de forma a eternizar uma obra. Qual é o segredo
para unir essas três características ou competências?
Carlos Lyra –
O segredo é você ser realmente uma pessoa com
vocação artística. Se você tem
vocação artística jamais deve desprezá-la.
Nesse caso a tendência é você conseguir
unir esses elementos. A vocação faz com que
o ser humano junte idéias, mas também junte
pessoas para engrandecer essas idéias. Vinícius
de Moraes, por exemplo, foi um grande aglutinador de pessoas.
Ele unir o Tom Jobim e o Baden (Powel) a mim, e depois o Toquinho,
o Edu Lobo, o Francis Hime. A Bossa Nova gerava formadores
de opinião.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – A Bossa Nova foi
sempre uma grande troca de experiência entre seus principais
ícones. O que você pode falar do aprendizado
na convivência com: Tom Jobim? Vinícius de Moraes?
Baden Powel? Ronaldo Bôscoli? Nara Leão?
Carlos Lyra –
Do Vinícius de Moraes aprendi não somente lições
de vida, como também sobre o valor da poesia da Manuel
Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros. Minhas
composições ficaram muito mais ricas. E o Vinícius
me passava tudo de uma maneira muito informal em bate-papo.
Qualquer conversa com o Vinícius vinha carregada de
informação, então eu não largava
do pé dele. Ele morava na Quinta da Boa Vista. Eu pegava
táxi para ir à casa dele e ele vinha a Ipanema.
Íamos aos bares. A troca de informações
é fundamental. Hoje na cultura brasileira eu não
vejo isso. Infelizmente as pessoas não vêem necessidade
de trocar informação. Já o Tom Jobim,
começou a beber nessa fonte da bossa nova ao mesmo
tempo em que eu. Era um grande músico e fã meu.
Ele estudou música com Cole Porter, com a Lúcia
Branco, estudou música erudita a fundo. E eu ia aproveitando
isso tudo. O Tom me incentivou muito no estudo da música.
Já o Baden Powel era espetacular. Pessoa de origem
humilde, ele tinha facilidade de absorção incrível
das coisas de Pixinguinha e tinha profundidade musical incomum;
não era literário, mas sabia mesclar o afro
com a bossa. Era muito aceito na Europa pelo exótico.
A Nara Leão era uma pessoa que veio depois de nós,
é uma discípula minha, do Edu Lobo, Menescal,
Vinícius. Não era uma musa pela qual as pessoas
se apaixonassem. Ela não é musa, é música.
Ela era uma pessoa participante. Musa é algo estéril
que fica em cima de um pedestal.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Há um empobrecimento
da língua portuguesa que se manifesta em muitas músicas,
por exemplo, de funk, axé, pagode, entre outros. Como
você vê isso?
Carlos Lyra –
Hoje o que está em alta talvez seja o consumo a todo
custo, talvez não seja mais a cultura. Talvez não
seja mais a arte. Arte e cultura passaram a ter conotação
muito precária, pobre. Porque depois do golpe militar
de 1964 não há mais preocupação
com o fator cultura e com o fator educação.
Conversei muito com estudantes de filosofia da atualidade
que disseram apenas “já ter ouvido falar de um
tal de Drummond de Andrade”; uma jornalista de conhecido
periódico carioca me pergunta se “eu canto música
country”. Na livraria que eu entro para pesquisar sobre
teatro grego, o rapaz que trabalha lá me pergunta “se
eu falo Shakespeare”. Aí já complica.
E este o baixo nível da educação e cultura
de hoje. A área de Educação hoje acabou
completamente.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Há preocupação
dos compositores e intérpretes com Educação
hoje?
Carlos Lyra –
Não há nenhuma! O que existe é uma procura
acelerada por informações a todo custo pela
Internet, mas, infelizmente não é uma procura
por cultura. Informação não é
exatamente cultura. A cultura está no tipo de filtro
de que faz da informação que se recebe. Hoje
a informação imediata e pasteurizada vence o
prazer se saber o que diziam as principais obras de Shakespeare,
como “Macbeth”. A música hoje, em geral,
está empobrecendo completamente as pessoas. É
claro que há exceções como Caetano Veloso,
capaz de escrever coisas de categoria. Mas de uma maneira
geral o que vemos é desencorajador.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Você conseguiu
unir a música da zona sul com a do morro em uma época
em que o samba não tinha o “comercialismo”
de hoje. Como isso foi possível?
Carlos Lyra –
A música de morro hoje não me interessa. Naquela
época me interessava, porque mesmo sendo de origem
humilde, o Zé Kéti, o Cartola e o Nelson Cavaquinho
tinham um talento musical espetacular. Aquela música
deles, que tinha uma força popular bonita e uma intuição
inacreditável. Eles tinham densidade. O fruto da união
desses caras com a Bossa Nova gerou o que hoje chamamos de
MPB (Música Popular Brasileira); a soma da música
qualitativa de morro com a Bossa Nova fez surgir gente como
Chico Buarque, Ivan Lins, Djavan e muitos outros. Eles são
filhos de um movimento que surgiu no Centro Popular de Cultura
(CPC) da UNE do qual fui um dos fundadores.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Por que hoje a
UNE não consegue ser nem um rascunho daquilo que um
dia foi e representou para os estudantes?
Carlos Lyra –
Porque naquela época estudantes realmente eram idealistas.
Eles estavam realmente querendo mexer na cultura e na estrutura
da sociedade brasileira em prol de uma sociedade mais justa.
Hoje apenas eles estão querendo se eleger, são
“politiqueiros”. Apesar de tudo o que vínhamos
ganhando com JK estávamos conscientes de que muitas
conquistas ainda eram necessárias. Havia injustiça
social.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - Quem influenciou quem,
a bossa nova ao jazz ou o jazz a bossa-nova? Ou teria sido
um movimento constante em mão-dupla por quê?
Carlos Lyra –
As duas coisas. Ela primeiro teve uma influência do
jazz west coast. Mas em um dado momento falamos: “gente,
vamos tomar cuidado para que isso não invada a nossa
área, a nossa cultura, aí começamos a
dar injeções de brasilidade em nossas melodias”.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Você começou
a investir em música ainda adolescente. Em qual momento
teve a consciência de que a Bossa Nova iria se expandir
para o mundo?
Carlos Lyra –
Foi o momento em que fomos para o Carneggie Hall (Nova Iorque
– EUA) em 1962. Ali, quando vimos aqueles “musos”
americanos aos nossos pés, gente como o Stan Getz,
Jerry Mulligan, do Chat Baker, aí caiu a ficha. Sentimos
que estávamos fazendo algo de realmente importante.
O convite para tocar lá pintou, na verdade, de um gringo
que tinha as piores intenções possíveis.
Ele só queria gravar as músicas para vender
e ganhar dinheiro em cima. Ele nos levou a pretexto de fazer
um concerto. Mas aquele concerto, apesar de toda a bagunça,
a Bossa Nova entrou no Carneggie Hall ao mesmo tempo dos Beatles.
E como os Beatles dando muito certo!
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“Falo de relações humanas,
de conflitos, coisas que me inspiram desde minhas primeiras
músicas” diz Carlos Lyra
(à esquerda na foto ao lado do jornalista Alexandre Peconick) |
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SITE DO GRUPO LET
/ NEWSLET – Em 1964, por força das circunstâncias
políticas pelas quais o nosso país passava você
se viu obrigado a se exilar, primeiro nos EUA e depois México,
me parece. Que importância esse contato com outras culturas
teve para a sua inspiração criativa no sentido
de gerar letras? Conte-nos um pouco sobre esta fase.
Carlos Lyra –
Esse contato com outras culturas me abriu mais horizontes,
como os músicos do jazz americano. Comecei a tocar
com o Stan Getz nos EUA, Japão, México. Os músicos
dele eram todos de primeira linha. Aprendi demais. Utilizava
o grupo do Stan Getz como um canal para mostrar a Bossa Nova,
para abrir mais portas à Bossa Nova. Curiosamente no
México tive um banho de cultura muito maior do que
nos EUA. Ali conheci o cineasta Luís Buñuel,
os diretores de teatro mexicanos, conheci a literatura espanhola,
os artistas latinos, Gil Vicente, Calderón de La Barca,
Jean Louis de Alarcón, Lopez de Veja; tudo o que era
lenda para mim. Gabriel Garcia Márquez foi meu parceiro
de gingle, conheci a obra “Os Cem Anos de Solidão”
no manuscrito, datilografado.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – E a saudade do
Brasil também influenciava na produção
musical?
Carlos Lyra –
Muito. Tanto é que eu só fazia música
brasileira por lá e a impunha aos povos que visitava.
É muito duro sentir saudade de um país. E eu
não podia voltar porque xingava um governo asqueroso.
Na verdade eles censuravam mais a minha pessoa, a minha postura
e o meu jeito de me comunicar com as pessoas do que as minhas
letras. Eles se arvoravam em censurar, por exemplo, “A
Marcha da Quarta-Feira” que não tinha nada demais
até porque tinha sido feita em 1963.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Cante um pedaço
dessa música...
Carlos Lyra –
“Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções...”,
Vinícius escreveu sem nenhuma conotação
política.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - Na sua opinião
que importância a produção e as atividades
do João Gilberto tem para a perpetuação
da cultura da Bossa Nova?
Carlos Lyra –
Nenhuma. A Bossa Nova foi criada pelos compositores e interpretada
por ele e não ao contrário. Se o João
Gilberto não tivesse as nossas composições
não teria o que interpretar. A perpetuação
da Bossa Nova se dá pelas constantes gravações
de vários artistas em todo o mundo e pelas criações
de nós compositores. O João apenas soma, mas
não é indispensável nem responsável.
O LP "Chega de Saudade" foi um marco por ter reunido
nossas composições de Bossa Nova com uma interpretação
que achamos ideal e adequada aquele gênero. Ele chegou
às rádios do mundo todo que passaram a conhecer
essa música brasileira de qualidade. À partir
disso, a Bossa Nova andou e anda com pernas próprias.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Não te
dá uma certa mágoa ao você ver artistas
com trabalhos bem menos densos de cultura serem ovacionados
pelo público enquanto você, de certa forma, não
tem o mesmo reconhecimento?
Carlos Lyra –
Não me magoa nada em termos de competição
com eles porque se eu for tentar competir com eles vou me
colocar naquele nível, o que não acontece na
minha cabeça. O que ma magoa, na verdade, é
que o povo brasileiro seja hoje tão ignorante que prefira
tocar “aquela m...” do que ouvir algo de melhor
qualidade. O empobrecimento já começou nos anos
70, se acelerou nos anos 80 e hoje, então é
a mediocridade total.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – A Bossa Nova pelas
letras fáceis de serem cantadas, tinha uma naturalidade
de unir “amor”, “climas”, “situações”.
Isso em um tempo onde havia mais tranqüilidade. E hoje
em dia, pela realidade ser bem diferente, seria mais difícil
fazer Bossa Nova?
Carlos Lyra –
Olha, eu estou criando essas letras hoje em dia. Acabei de
fazer uma letra para o Marcos Valle exatamente como se eu
estivesse nos anos 60. O que me inspira hoje não tem
nada a ver com mar, com paisagens, montanha, lua e céu.
Eu não tenho nada a ver com essa besteira. Isso é
coisa do Tom Jobim ou do Roberto Menescal. Eles adoram morro,
paisagem.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – E o quê
exatamente te inspira?
Carlos Lyra –
Pessoas. Gente. As relações humanas. Isso sempre
me inspirou, desde minhas primeiras letras. “O que o
seu pai vai dizer; menino eu não presto não
pra você, eu sou coisa ruim, será que você
quer que falem de você também? Do jeito que falam
de mim, quando chegares aqui pode entrar sem bater. Liga a
vitrola baixinho, vem me abraça e quando já
for bem cedinho, esquece o que ouviu entre nós. Saia
assim de mansinho e não pense mais nisso”. São
conflitos humanos. Lua não me dá conflitos.
Muito antes de o termo Recursos Humanos ficar “popular”
a Bossa Nova já cuidava de pessoas. Eu em especial.
O Vinícius quando escrevia músicas para o Tom
era sempre “o céu, o mar, o avião”;
quando escrevia para mim era algo tipo to “Sabe o que
é o amor? Não sabe, eu sei. Nasci lá
na Bahia de mocambo com o feitor”. Quando ele escrevia
para mim ele sacava a sua personalidade. Inspirava-me nas
coisas que eu via, em situações como a de um
cara meio cafajeste que queria namorar uma garota em uma fazenda.
Imediatamente isso me inspirou a música menina, cuja
melodia já te disse nesta resposta. Minhas músicas
transportam pessoas para os sentimentos que podem ser amor,
desilusão, desamor. Minha primeira música “Quando
Chegares” foi chamada de machista, pois o egoísmo
masculina dispensa a mulher com crueldade. Escrevi com 16
anos.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Falando um pouco
sobre suas músicas, “Coisa Mais Linda”
seria uma marca registrada da Bossa Nova?
Carlos Lyra –
Sim, porque é uma música que as pessoas elegem
muito. As letras da Bossa Nova muitas vezes são carinhosas,
mas muitas vezes são fortes para sacudir as pessoas,
como “Ditadura Tem Hora” de um musical que fiz
com Millôr Fernandes. Também fiz músicas
que brincavam com personagens humanos como o “cafajeste
comedor de mulheres”, assim é “Lobo Bobo”.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Você sempre
liga a Bossa Nova à Educação. Mas o quê
de fato as pessoas aprendem ao cantar ou ouvir Bossa Nova?
Carlos Lyra –
Para começar aprendem alguma coisa da língua
portuguesa, o que está difícil de ouvir e ler
bem nos dias atuais, porque quem lê Vinicius de Moraes
desenvolve demais a sua capacidade de escrever melhor. Pena
que o Drummond nunca quis escrever letras de música.
A letra da Bossa Nova não era, contudo, somente poesia.
Inclusive tinham uma coisa que o Vinicius aprendia conosco
da simplicidade correta e coloquial. Não tem rebuscamento
paranasiano. Você lê tão naturalmente e
mergulha no texto que nem percebe que é bem escrito.
Este é o texto ideal. Mas hoje, infelizmente, para
se aprender música precisamos desligar o rádio
e colocar um CD.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Você sente
muita falta do Tom e do Vinicius nessa atividade de estar
junto para criar? Se vivos estivessem eles se indignariam
com a atual “produção” musical?
Carlos Lyra –
Claro, a troca de figurinhas com essa gente era fundamental.
Antes de morrer eles já estavam indignadíssimos
com os rumos da música. Conversei isso com o Tom pouco
antes dele morrer (8 de dezembro de 1994).
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Como está
o seu trabalho hoje?
Carlos Lyra –
Está menos exposto ao público, pois existe menos
possibilidade. Então quando vou fazer um show as pessoas
esperam um revival daquela época. As pessoas esperam
um pouco daquilo. Quando vou fazer shows para estudantes só
canto coisas antigas.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Mas jovens se
interessam por Bossa Nova?
Carlos Lyra –
Sim. Muitos. Vou fazer shows na Ilha do Fundão (UFRJ).
E a empolgação deles é contagiante. Vou
contando histórias da Bossa Nova e as moças
choram. Eles perguntam como eram as reações
da época ao que cantávamos. Mas quando eu saio
da universidade o nível intelectual dos jovens baixa
muito.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - De que forma a bossa-nova
hoje pode beneficiar profissionais que são cobrados
a criar e inovar o tempo todo?
Carlos Lyra –
A Bossa Nova é uma música inovadora por si só.
Dentro de uma mesma canção, tanto a melodia
quanto a harmonia vão se modificando e nunca se repetindo.
Ela provoca mudanças e aguça os ouvidos que
estão sempre se surpreendendo com a novidade em cada
detalhe. Isso pode servir de estímulo para as criações
em geral.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - É possível
dizer que Bossa-nova seria um “remédio”
ideal contra o estresse das mazelas do dia a dia? Por quê?
Carlos Lyra –
O público japonês consome a Bossa Nova porque
a vida deles é muito estressada e eles são muito
cobrados o tempo todo. Então, quando chegam em casa,
o que os relaxa são as músicas de Bossa Nova.
Elas têm uma função terapêutica
por terem um ritmo suave e uma interpretação
cool, comportada.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET – Então Bossa
Nova e Recursos Humanos têm tudo a ver?
Carlos Lyra –
Bossa Nova e Recursos Humanos estão intimamente ligados,
com certeza. Bossa Nova é um Recursos Humano na real
definição desta palavra. Pessoas que trabalham
com outras pessoas em qualquer empresa deveriam ouvir muita
bossa nova até para aprimorar seu jogo de cintura para
lidar com qualquer relacionamento diário. Seria muito
construtivo que as organizações adotassem sessões
de Bossa Nova entre seus integrantes.
SITE DO GRUPO LET / NEWSLET - Para encerrar a entrevista:
de Tom Jobim a Vinícius, passando por Caetano, Gil,
Fernanda Montenegro, Roberto Carlos, entre outros ícones,
eles te consideram um mito e um pai da Bossa Nova. Agora Carlos
Lyra por Carlos Lyra. Afinal, quem é você?
Carlos Lyra –
Eu sou um pouco de tudo isso que eles dizem, porque também
sou um produto deles. Se não fosse Fernanda Montenegro
eu também não seria completo. Se não
houvesse o Tom Jobim fazendo o que ele fez eu também
estaria curto. Se não fosse o Caetano, o Gil e os novos
baianos, a Maria Betânia, eu não teria ganho
tanto. Eles me deram muito. E se sou um mito devo a eles.
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