Ícone e referência
nacional na área de negociações trabalhistas,
consultor de inúmeras empresas em casos como greves,
problemas com planos de carreira e folha de pagamento, Carlos
Pessoa concedeu-nos a honra de receber parte de seus grandes
conhecimentos no I Fórum de Relações
Trabalhistas, no último dia 24 de Julho, auditório
principal da Associação Comercial do Rio de
Janeiro, Centro.
Os recentes encargos tributários que o setor público
vem transferindo para empresas e organizações
privadas foram um dos fatores preponderantes para a presença
de Carlos Pessoa, ex-presidente da ABRH-BA e consultor de
Recursos Humanos em Relações do Trabalho.
Mineiro de nascimento e baiano por adoção (há
20 anos morando em Salvador), Carlos Pessoa além de
traçar um panorama das relações trabalhistas
dá aqui algumas orientações para gestores,
empregadores e profissionais.
Diante de tantas leis trabalhistas que temos quais
são os maiores desafios quando falamos de relações
do trabalho?
Carlos Pessoa –
Hoje temos dois grandes desafios: um é a reforma trabalhista
que é mais do necessário e o outro, é
que antes mesmo dessa reforma seja regulamentada a terceirização
nesse país. Hoje a terceirização está
no código civil, porque é um contrato de serviços.
Mas nós precisamos adaptar isso à lei trabalhista
porque a relação de trabalho está cada
vez e muito mais evidente. Hoje se terceiriza mão-de-obra
disfarçada de serviços, porque não há
uma lei adequada para isso. E esta é a grande questão,
porque a tendência mundial irreversível é
a da terceirização. Temos que encarar esta situação
de frente e ainda não o estamos fazendo.
Ao seu ver esta mudança na lei que amplia o enquadramento
dos tipos de acidentes de trabalho podem inibir contratações,
uma vez que as empresas terão maiores encargos sociais?
Carlos Pessoa –
Não porque as empresas já estão cientes
dessa realidade e se preparam para isso e porque o país
precisa trabalhar. Mesmo assim uma coisa é certa: o
custo social será muito mais onerado para as empresas,
tanto as que terceirizam, como as que não terceirizam.
O preço para cair só para quem está contratando.
O que ocorreu aí é que o poder público
se omitiu de uma responsabilidade que era sua e jogou isso
para as empresas. Essa é a grande questão brasileira
trabalhista para se discutir hoje: o que é de responsabilidade
pública não pode ser jogado para a iniciativa
privada.
Você confessa que o governo não tem interesse
em mudar isso. Mas fomos nós quem colocamos o governo
lá. Como, efetivamente, a sociedade civil pode mudar
esse quadro?
Carlos Pessoa –
Podemos nos organizar por meio, por exemplo, de propostas
que as seccionais, no caso a ABRH-RJ levem para que a ABRH-Nacional
faça representações no Congresso Nacional.
A ABRH-RJ deve reunir proposta das empresas sobre reforma
trabalhista. Este evento (I Fórum de Relações
Trabalhistas) foi o primeiro e importantíssimo passo.
Estamos em uma linha direta com o Ministério do Trabalho
para tratarmos desse assunto. Fui convidado pelo governo para
participar em Brasília, representando a ABRH Nacional
de uma reunião para começar a tentar regulamentar
a terceirização.
E o quê já está se fazendo de
concreto neste sentido?
Carlos Pessoa –
Estou propondo que o Fórum para essas discussões
seja aqui no Rio de Janeiro. Vamos buscar propostas de interesse
nacional. Estamos com dois temas já no Ministério
do Trabalho. O primeiro é o da Jornada de Trabalho,
nossa proposta é a de se acabar com a jornada semanal
e fixar na lei uma jornada anual. E deixar a diária,
a semanal e a mensal para serem discutidas nos sindicatos.
Os dois lados ganhariam com isso. O trabalhador porque a média
dele vai ser de 40 horas por semana, que é uma bandeira
que ele tem (2.080 horas/ano), ou seja, ele ganha 119 horas
no ano (ele deixa de trabalhar por esse tempo) e as empresas
ganham porque a sazonalidade delas pode ser atendida, pois
se pode trabalhar 48 horas em uma semana e 30 na seguinte,
por exemplo.
A maioria dos conflitos acontece porque ambas as partes,
empregadores e empregados, desconhecem, segundo você
afirma, os meandros da lei. Qual é o caminho para acabarmos
com esse problema?
Carlos Pessoa – Eu diria a você
que, infelizmente, isso é um problema cultural. Uma
parte do conflito se dá por desconhecimento e a outra
pela famosa “Lei de Gérson”, aquela de
levar vantagem em tudo. Ninguém quer sair perdendo
e um quer ser mais esperto que o outro, contratando por muito
mais barato que o outro, terceirizando para pagar a metade;
e o outro quer aproveitar para ganhar mais dinheiro aqui e
ali e o trabalhador aceita, se acomoda e fica de acertar tudo
quando for embora daquele trabalho. Essa cultura brasileira
vem atrapalhando um pouco a negociação trabalhista.
Precisamos abrir mais a discussão e fazer leis mais
compatíveis com a nossa realidade para que as pessoas
possam de fato cumpri-las. É necessária a boa
fé.
Uma questão muito séria para o mercado
é a do chamado “PJ”, ou prestador de serviços.
Encargos trabalhistas pesados, fazem com que seja cada vez
maior o número de prestadores de serviços em
empresas que na verdade atuam como CLTistas, cumprindo carga
horária e metas. Como você e a lei vêem
os direitos deles em relação aos encargos sociais,
como férias, 13º salário e outros?
Carlos Pessoa –
Cada um quer pagar sempre um pouco menos. Essa idéia
da Pessoa Jurídica seria uma idéia muito boa
se fosse para funcionar em alguns momentos, como um auditor,
um consultor em algum tipo de trabalho. Mas quando você
disfarça a pessoa da qual você precisa dela diariamente
em PJ aí você está tentando burlar a lei
para pagar menos. Eu acho que se a gente for rever a situação,
existe uma grande diferença no Brasil da pessoa sub-contratada,
que é a pessoa, sem contrato e trabalhando sem estar
legal, daquele que é regulamentado. Precisamos aproximar
muito esses direitos e deveres do PJ com o CLTista, senão
a tendência de existirem mais “PJs” será
sempre maior. Vou dar um exemplo bem prático: hoje
compra-se muito mais CD pirata do que na loja, porque a diferença
de preço é muito grande. O dia em que a diferença
for reduzidíssima ninguém vai mais querer o
CD pirata. Temos que dar mais benefícios trabalhistas
aos “PJs”, a lei tem que conferir isso. O contingente
de autônomos hoje é muito maior do que o de empregados
legais, temos que pensar neles.
Os carros de metrô no Rio estão (ou
pelo menos estavam até algumas semanas atrás)
divulgando anúncios com dizeres do tipo “prestador
de serviço, você cumpre horário, então
tem os mesmos diretos que os CLTistas, exija seus direitos”,
quer dizer, cresce o número de advogados que ganham
dinheiro em função dessas questões não
é?
Carlos Pessoa –
Esse é um outro aspecto da questão. Existem
de fato advogados aproveitadores querendo usufruir disso e
às vezes, depois que ganham dinheiro, prejudicam o
próprio trabalhador. O trabalhador hoje é uma
massa de manobra. E se você olhar o que acontece hoje
no país, os próprios sindicatos mudaram muito
de função: hoje vários deles são
instrumentos políticos do governo, tanto a Força
Sindical, quanto a CUT.
Na sua concepção, porque o governo
tem tanto interesse em divulgar a todo o momento que aumenta
o número de empregos CLT, mas ao mesmo tempo omite
que o número de autônomos aumenta muito mais?
Carlos Pessoa –
De fato o número de autônomos é muito
maior. Mas o governo faz propaganda em cima disso porque o
Lula disse que criaria 10 milhões de empregos no país
e ele quer mostrar isso. O problema é a qualidade desses
empregos criados e o “apagão de qualificação”
que o país sofre. Há muita gente empregada sem
saber direito exercer sua função. Tínhamos
uma lei que incentivava o treinamento, mas ela foi congelada
ainda no Governo Collor pela então ministra da fazenda
Zélia Cardoso de Mello. E hoje os altos tributos impedem
que as empresas tenham disponibilidade de caixa para treinar.
Fale um pouco sobre a Lei do Trabalho Temporário. Tem
aumentado muito o número de empresas que utilizam este
tipo de prática...
Carlos Pessoa –
O trabalho temporário está regulamentado pela
Lei 6.019, que embora feita em 1972 é muito atual ainda.
Estabelece que o temporário tem que ganhar um salário
equivalente ao dos demais funcionários que exercem
a mesma função como contratados CLT da empresa.
Esta é uma lei definitiva que não permite ações
trabalhistas. O problema dessa lei é a limitação
do tempo.
Você colocou durante o evento a informação
de que o fornecedor de serviços na maioria dos casos
paga seus empregados como “mensalistas” e demonstra
sua taxa de encargos sociais como se eles fossem “horistas”.
Por que isso acontece e o que há por trás disso?
Carlos Pessoa –
Este é o desafio que eu faço para que todas
as pessoas sob contrato façam essa análise,
porque na minha experiência esta é uma realidade.
A diferença é que a taxa de encargos sociais
de mensalista anda na faixa de 76% em média e o de
horista passa de 100%. Então esse é um percentual
que o empregado está ganhando e que não está
demonstrado aqui na taxa de lucro. E há um desconhecimento
das empresas que não vêem isso.
Afinal, a demissão é cara ou barata no Brasil?
Carlos Pessoa –
Ele é bem barata. Precisava ser mais onerosa para se
dificultar mais. Hoje é muito fácil se demitir,
até porque o salário médio no país
está mais baixo proporcionalmente do que há
10 anos atrás. Muitas empresas mandam gente embora
por um salário e contratam outra para ganhar menos.
Mas a tendência para o futuro, entretanto, é
a da valorização salarial, crescimento econômico
e caça pelos talentos, porque a qualificação
profissional está escassa.
Para finalizar; você coloca em todas as sua
falas que a terceirização é hoje uma
tendência. Mas essa tendência invalida políticas
públicas de governo em Recursos Humanos? Enfim, como
terceirização e poder público podem conviver
harmonicamente?
Carlos Pessoa –
Pergunta muito interessante! Terceirização não
invalida de maneira nenhuma atuação do RH em
serviço público, mesmo porque hoje no país
¼ de toda a mão-de-obra nacional já é
terceirizada. Imagine então que a maioria ainda é
de primeira mão, então precisamos que olhem
isso com muito carinho. Acho que as políticas têm
que ser as mesmas para todos os tipos de trabalhadores. Foi
feita uma pesquisa em São Paulo dizendo que o terceirizado
ganha metade dos demais e ainda não tem assistência
médica. Precisa ter. Mudar isso requer quebrar paradigmas
culturais. Temos que começar pela lei.
|