Derreter o gesso da máquina
estatal é o sonho de qualquer gestor com o mínimo
de “sangue empreendedorista” nas veias. Como desburocratizar
uma gestão estatal, normalmente gessada por vícios,
sempre foi um desafio. Mais do que isso: como alinhar uma
gestão moderna e competitiva, sem perder de vista a
função social do Estado?
Paulo Daniel Barreto começa a indicar alguns caminhos
para se chagar a este objetivo em seu livro “A Excelência
em Gestão Pública – a Trajetória
e a Estratégia do Gespública” publicado
pela Qualitymark Editora (
www.qualitymark.com.br).
O autor usa seus 34 anos de experiência como servidor
público para elucidar a mecânica dessa gestão
de resultados e fazer de seu trabalho muito mais do que um
manual, uma ferramenta de transformação, trazendo
elementos importantes da gestão privada e comprovando
como podem ser usados junto aos servidores públicos
de qualquer área.
Entre os destaques de sua trajetória profissional,
Paulo Daniel coordenou os Projetos do Centro de Estudos Estratégicos
da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência
da República entre 1991 e 1995 (governos Fernando Collor
e Itamar Franco).
Prestadores de serviço de órgãos públicos
também devem ler este livro com atenção.
“Interrompendo” suas férias diretamente
da Itália, Paulo Daniel concedeu entrevista especial
ao SITE DO GRUPO LET para nos esclarecer e desmistificar os
fantasmas da gestão pública.
SITE DO GRUPO LET – Todo profissional quando escreve
um livro tem como base uma vivência muito sólida
em sua atividade. Que experiências vividas por você
na administração pública mais o inspiraram
a querer dividir isso com os leitores?
PAULO DANIEL -
Tive uma grande experiência que serve de pano de fundo
para tudo aquilo que fiz ao longo de mais de 17 anos ministrando
palestras e cursos sobre gestão pública. Ela
está relacionada à constatação
do desafio da mudança a partir da reforma do aparelho
do Estado iniciada em 1995. No setor público se prática
a mudança baseada nas organizações e
nos instrumentos legais. Sempre que ouvi falar em mudança
ou reforma constatei ações ligadas à
criação/extinção de órgãos;
a reestruturações organizacionais e à
edição de decretos e normas para validar e formalizar
a mudança.
E excelência em gestão pública que tenho
pregado não despreza as eventuais necessidades de reorganizar
e de alterar ou mesmo editar leis, porém, não
abre mão de trabalhar em primeiro lugar com as pessoas,
para que, identificando-se com a mudança, passem a
trabalhar por ela e como conseqüência, internalizando
e inestitucionalizando novos hábitos e novos valores.
SITE DO GRUPO LET – Mas como se estruturou essa reforma
do modelo de gestão em 1995 (já sob o Governo
FHC)?
PAULO DANIEL -
Esta Reforma seria feita em três dimensões: institucional,
cultural e de gestão. Pois bem, a reforma institucional,
que propôs modelos novos de instituições
públicas - as organizações sociais e
nova forma de gerenciamento público que resultariam
em uma qualificação de algumas organizações
públicas como agências executivas - foi enfática
e prioritariamente considerado pela REforma. Contudo, a essência
dessa reforma e ao mesmo tempo o seu desafio - que a diferenciaria
das demais reformas administrativas até então
- foram desprezadas: a busca por novas práticas de
gestão, a orientação para resultados
e o engajamento da sociedade de um lado e dos servidores públicos
do outro foram esquecidas.
Como em termos de valores e de práticas de gestão
nada mudou, as organizações sociais e a agência
executiva não passaram de rótulos novos. A qualidade
da gestão pública continua a mesma, alicerçada
nos mesmos paradigmas, obcecada por metas físicas e
financeiras que recheiam páginas e páginas de
relatórios estéreis mas que pouco acrescentam
em termos de valor público e ganho social.
SITE DO GRUPO LET – A administração e
a gestão pública de uma forma geral é
vista sempre como algo gessado, um organismo burocrático
e extremamente complicado de se lidar. Por que isso acontece?
PAULO DANIEL -
Historicamente sempre foi assim. A administração
pública é por natureza burocrática. Em
princípio, não há nada de errado nisso.
O setor público precisa prestar contas à sociedade
do uso dos recursos públicos e dos ganhos sociais que
oferece a partir desses recursos. Portanto, é preciso
separar a burocracia necessária à rastreabilidade
dos atos dos gestores públicos e à prestação
de contas, da burocracia exagerada que faz exigências
desnecessárias e que não está voltada
para o cidadão enquanto destinatário das ações
do Estado e dos serviços públicos por ele prestados.
Neste exagero da prática burocrática, chamado
por Hélio Beltrão de burocratização,
acontece a inversão de sentido do servir ao público,
na medida em que a administração pública
coloca seus agentes e a sociedade em geral para servir à
burocracia, em lugar de colocar a burocracia à serviço
daqueles.
É importante ressaltar, no entanto, que pouco a pouco
essa situação está mudando, pois embora
ainda poucos, já podemos contar com serviços
e servidores públicos que encaram a burocracia com
um meio de servir bem e prestar contas à sociedade.
SITE DO GRUPO LET – Que mecanismos de gestão
tornam efetivamente possível alcançarmos resultados
rápidos e eficientes em uma administração
pública sem que a função social dessa
administração seja deixada de lado?
PAULO DANIEL -
Os principais mecanismos que se tem utilizado decorrem da
necessidade de transformar as organizações públicas
em organizações de aprendizagem. Tal transformação
está baseada na realização continuada
de avaliação e melhoria das práticas
de gestão dos órgãos e entidades públicos.
Tais avaliações são realizadas mediante
comparação das práticas de gestão
das organizações com padrões internacionais
de gestão que expressam o "estado da arte"
da gestão contemporânea. Uma ressalva importante:
resultados rápidos podem ter um significado muito elástico.
O conjunto de instrumentos ligados à avaliação
e melhoria continuada de gestão começa a dar
frutos logo após a implementação das
primeiras melhorias - cerca de um ano - no entanto, a transformação
perceptível pelos governos aos quais pertencem essas
organizações e pela sociedade, não aparece
antes de quatro ou cinco anos.
SITE DO GRUPO LET – Como podemos criar no funcionário
público a mentalidade de um empreendedor e a cultura
de se tratar qualquer um como seu cliente? Por que isso tem
sido tão difícil observarmos no dia a dia das
três instâncias públicas, municipal, estadual
e mais ainda, da federal?
PAULO DANIEL -
Acredito no que tem sido feito, ou seja, na sensibilização
e na capacitação para que o servidor público
seja um empreendedor vá pouco a pouco dando resultados
- são demorados, mas sólidos, pois estão
baseados na mudança de hábitos e de paradigmas.
Falo especificamente da internalização de princípios
internacionais da boa gestão como agilidade, inovação
e excelência de atendimento dirigida ao cidadão.
Faço apenas uma ressalva quanto a tentar que o servidor
público passe a tratar as pessoas como cliente. Em
primeiro lugar porque não há como reduzir o
cidadão a mero cliente. O servidor público tem
que servir à sociedade e ao cidadão da melhor
forma possível, com padrões de excelência
de classe mundial, mas sem travestir o cidadão de cliente,
pelo simples motivo de que ele não é.
SITE DO GRUPO LET – Mas é o cidadão quem
paga esse servidor por meio de impostos, então ele
não pode (e não deve) ter uma relação
de clientela com o servidor?
PAULO DANIEL – Cliente é quem compra, o cidadão.
Este, por ser co-proprietário do Estado, não
compra, mas exerce o seu direito cidadão de ter acesso
ao serviço público. Em segundo lugar, o setor
público não pode fazer diferença entre
as pessoas - exceto nos casos estabelecidos por lei. Isso
significa que em organizações públicas
não pode haver práticas de gestão tão
utilizadas pelo setor privados voltadas para pessoas muito
importantes - normalmente os clientes fidelizados.