IBDD Capacita Grupo LET - palestra
Dez-10-2007
IBDD capacita Grupo LET para trabalho com deficientes
Palestra da psicóloga com MBA em RH, Márcia Benevides é apenas o primeiro passo de um meticuloso trabalho
Por Alexandre Peconick (texto / fotos)
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A palestra de Márcia Benevides, profissional cega do IBDD que trabalha com
Orientação Profissional para lidar com Deficientes, foi muito elogiada pelas
profissionais de RH e pela área Comercial do Grupo LET
 
É muito comum empresas solicitarem dicas de como lidar com deficientes ou, mais comum ainda, afirmarem que não têm deficientes em seus quadros, pois há dificuldades em se localizar profissionais qualificados. A palestra de sensibilização e capacitação profissional realizada pela psicóloga do IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência) com MBA em Gestão de RH, Márcia Benevides comprova que estes são dois mitos que precisam ser quebrados. Ou seja, primeiro não existe receita de bolo ou manual para lidar com o deficiente. “Temos que pensar que o deficiente é um candidato comum, por isso lidem com eles de uma forma natural”, orienta Márcia. Segundo que profissionais não qualificados também existem aos montes entre os não deficientes, é um problema do mercado e que muitos deficientes têm habilidades que as empresas não conhecem porque o RH teve medo ou desconhecimento de lidar.

A parceria entre IBDD e Grupo LET – firmada há cerca de um mês - tem como principal objetivo facilitar às empresas clientes do Grupo LET no recrutamento e seleção de pessoas com deficiência, um processo seletivo mais qualitativo e uma maior retenção desses profissionais nas empresas por meio do aproveitamento de suas reais qualidades.

Um ponto crucial para aproveitar o potencial de um deficiente, segundo Márcia Benevides, é o de é perceber a limitação real da pessoa com deficiência e ficar atento às limitações que nós criamos em nossa cabeça.

Como assim? “A minha limitação real é: não enxergo. Acabou”, explica Márcia dando exemplo de si mesma. “Então se você colocar um jornal na minha frente não vou ler, pois não enxergo. Mas a limitação na cabeça das pessoas: se a Márcia não enxerga, como ela come, toma banho, trabalha, namora, como??!! Essas são limitações nossas não são as da Márcia. Temos que nos abrir para conhecer os deficientes, sobre suas deficiências. Pergunte ao deficiente o que ele pode fazer, converse com eles. O grande perigo do RH é não saber qualificar essas limitações reais e imaginárias”, assegura ela que sugere ao RH que aplique testes práticos com os deficientes para que eles mostrem o que podem fazer.


Percepção



Uma dinâmica de percepção (a “dinâmica da chuva”) foi conduzida por Márcia Benevides às Analistas de RH do Grupo LET para que esse universo do deficiente comece a deixar de ser totalmente desconhecido ao profissional de RH. Márcia pediu a todos os presentes à palestra (nove pessoas sentadas) que fechassem os olhos e fizessem gestos esfregando as mãos para simbolizar o vento, estalando os dedos para simbolizar chuva fraca e batendo com a palma das mãos das pernas para simbolizar um temporal. Foi impressionante o grau de percepção ao se realizar a dinâmica.

Para a palestrante a prática das dinâmicas nas empresas tem ajudado os gestores a quebrarem um pouquinho esse medo em lidar com os deficientes. Ela acredita que o grande desafio do RH é quebrar esse medo.

“Nosso foco aqui tem que ser ver a pessoa e não a deficiência. A pessoa e suas capacidades estão à frente da deficiência e não o contrário”, afirma Márcia que, desde 1993, ficou cega de uma das vistas e quase cega da outra em função de um erro médico. “Estava no 7º período da faculdade de Psicologia, mas não esmoreci, continuei, não tranquei matrícula e ainda fiz curso complementar de Psicanálise”, conta Márcia.




Convivência com o deficiente é fundamental para aprendizado



Márcia Benevides, que há 10 anos trabalha com inserção de deficientes no mercado de trabalho orientando empresas e que realizou grande trabalho de estruturação no CIEE Rio (entre 2000 e 2003) para o atendimento aos deficientes, aborda também aquilo o que chama de “lei da compensação”. “Temos que perceber que todos nós temos dentro de nós essa lei da compensação, ou seja, nos adaptamos facilmente a uma série de situações, de limitações. Isso sempre acontece em nossa vida, em tudo”, explica Márcia.

Mais importante ainda do que conseguir se adaptar e criar uma rotina de convivência: a melhor forma de aprender sobre o deficiente. A convivência com instrumento facilitador é o quarto ponto muito importante para o RH.

“A partir do momento que vocês começam a entrevistar, contratar pessoas com deficiência e trabalhar com essas pessoas começam a aprender com elas. No início todo mundo fica nervoso sem saber muito o que fazer. Aja de forma natural. Se você for, por exemplo, falar com um surdo, fale olhando para ele, pois eles estão desenvolvendo a leitura labial. Evite levar a mão ao rosto ou falar com eles em locais escuros. Para se dirigir a um cego não adianta falar com ele e de repente sair do recinto sem avisar a ele; se você não avisar que está saindo ele vai continuar falando com você”, explica Márcia Benevides em sua palestra aos profissionais do Grupo LET.

O importante para o RH é não ter medo de fazer e descobrir os procedimentos em relação aos deficientes. Por isso, é necessário tirar da mente a imagem de que o deficiente é um coitadinho. “Deficiente não vai virar anjo quando for para o céu. Existe deficiente competente, como existe deficiente malandro. Uma vez vi um chefe de quadrilha de traficantes que não tinha um braço. Bem, este não é um coitado. A convivência ajuda você a ter a real noção de como tratar o deficiente, seja qual for a deficiência dele”, esclarece Márcia.

Ouça a pessoa, pergunte para ela quais são suas reais limitações físicas. De acordo com a psicóloga, cada pessoa cria seu macete de trabalhar, se adapta de uma forma. O que importa é isso gerar resultados. “Essa palestra é mais para refletirmos sobre nossos valores, sobre os mitos, os rótulos e ir rompendo aos poucos esses mitos, colocando isso em prática no setor de RH”, afirma Márcia Benevides.




Adaptação

Há a deficiência de nascença e a adquirida. No caso da deficiência de nascença; exemplo, uma pessoa sem um dos braços, é mais fácil ainda essa adaptação, pois a pessoa nunca soube o que era ter aquele braço. Mas se uma pessoa tinha o braço e o perdeu em um acidente ela terá que passar por um período de adaptação. Mas, com certeza, se ela está enviando currículo a uma empresa, já passou por esse período crítico de adaptação física e emocional. A pessoa com deficiência geralmente sabe quando está preparada. Há uma pessoa com paralisia cerebral no IBDD que fala e se move com dificuldade, mas tem excelente currículo: é graduada em Pedagogia na UERJ, fez mestrado em Educação Especial, é inteligentíssima. Mas ela não consegue passar em entrevistas pela barreira do preconceito, os RHs não conseguem ver ela de forma natural.

O quinto ponto seria o feedback aos candidatos em processos seletivos. Todos precisam saber porque foram aprovados e porque não foram aprovados, com muita transparência.



Os direitos e o esporte


Todo cidadão tem o direito de ir e vir e a pessoa com deficiência é uma pessoa como qualquer outra, com direitos de cidadania. Por isso o IBDD propicia ferramentas às pessoas com deficiência para que elas encontrem caminhos para exercer sua cidadania, mesmo em nossa preconceituosa sociedade.

O IBDD também patrocina atletas com deficiência. Aqui mostramos que as barreiras que os atletas vencem no esporte são maiores do que a de qualquer escritório. O esporte também é instrumento de cidadania. Mas o IBDD não faz assistencialismo. “Trabalhamos em prol de uma sociedade mais acessível a todos”, explica Márcia Benevides. O que significa isso? Há que se ter todas as estações de metrô e trens, todos os ônibus, todos os prédios comerciais e empresariais com acessibilidade para deficientes; não apenas alguns. Não adianta se pensar em mercado de trabalho sem a garantia do direito de ir e vir.

Para auxiliar as empresas nesse “caminho da acessibilidade” o IBDD também faz as chamadas “visitas de consultoria para acessibilidade” nas empresas, avaliando o que precisa ser alterado e como precisa ser alterado em cada ambiente de trabalho. “Quando falamos em acessibilidade não nos referimos apenas ao espaço físico, mas também a recursos técnicos, por exemplo, eu não enxergo, mas posso usar o computador normalmente ao usar um programa chamado Dosvox, que baixo gratuitamente da Internet”, informa a palestrante.
 
Deficientes: Contexto histórico e nomenclatura correta

A palestrante fez questão de ressaltar que o certo é se usar o termo “pessoa com deficiência”, pois os termos “portador” e “pessoa portadora” são altamente discriminatórios. A sociedade tem dificuldade em pronunciar a palavra “deficiente”. “Chamem de deficiente, pois ele é deficiente; detestamos os termos “portador” e “necessidades especiais”, são altamente hipócritas; afinal, deficiente é uma característica da pessoa”, assegura Márcia.

Para o IBDD é importante percebermos que somos fruto de uma cultura que não se muda da noite para o dia. Na Antiguidade as pessoas com deficiência eram vistos como bichos, como pessoas que não serviam para nada. Muitos eram mortos. Na Idade Média o deficiente “era possuído pelo demônio”. O deficiente só começou a ter visibilidade muito recentemente quando os soldados americanos voltavam do Vietnã, muitos mutilados, alguns cegos. Eles exigiram que a pátria fizesse algo por eles que tanto tinham feito pela pátria. As pessoas começavam a desenvolver movimentos de luta para romper essa cultura social. Com a lei de cotas (8.213) os deficientes também passaram em 1991 a ser mais “valorizados”. De forma bem lenta, é verdade. Apenas desde 2005 verifica-se resultados práticos na inserção do deficiente no mercado.

A lei deu um pontapé inicial para a mudança da cultura, nas próprias telenovelas e comerciais da TV Globo. “Para trabalharmos nós do RH o hoje, temos que entender o processo pelo qual eles passam. Se eu não sei nada sobre determinado assunto não tenho propriedades para julgar ou para trabalhar em cima dele”, justifica Márcia.
 
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