É muito comum empresas
solicitarem dicas de como lidar com deficientes ou, mais comum
ainda, afirmarem que não têm deficientes em seus
quadros, pois há dificuldades em se localizar profissionais
qualificados. A palestra de sensibilização e
capacitação profissional realizada pela psicóloga
do IBDD (Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência)
com MBA em Gestão de RH, Márcia Benevides comprova
que estes são dois mitos que precisam ser quebrados.
Ou seja, primeiro não existe receita de bolo ou manual
para lidar com o deficiente. “Temos que pensar que o
deficiente é um candidato comum, por isso lidem com
eles de uma forma natural”, orienta Márcia. Segundo
que profissionais não qualificados também existem
aos montes entre os não deficientes, é um problema
do mercado e que muitos deficientes têm habilidades
que as empresas não conhecem porque o RH teve medo
ou desconhecimento de lidar.
A parceria entre IBDD e Grupo LET – firmada há
cerca de um mês - tem como principal objetivo facilitar
às empresas clientes do Grupo LET no recrutamento e
seleção de pessoas com deficiência, um
processo seletivo mais qualitativo e uma maior retenção
desses profissionais nas empresas por meio do aproveitamento
de suas reais qualidades.
Um ponto crucial para aproveitar o potencial de um deficiente,
segundo Márcia Benevides, é o de é perceber
a limitação real da pessoa com deficiência
e ficar atento às limitações que nós
criamos em nossa cabeça.
Como assim? “A minha limitação real é:
não enxergo. Acabou”, explica Márcia dando
exemplo de si mesma. “Então se você colocar
um jornal na minha frente não vou ler, pois não
enxergo. Mas a limitação na cabeça das
pessoas: se a Márcia não enxerga, como ela come,
toma banho, trabalha, namora, como??!! Essas são limitações
nossas não são as da Márcia. Temos que
nos abrir para conhecer os deficientes, sobre suas deficiências.
Pergunte ao deficiente o que ele pode fazer, converse com
eles. O grande perigo do RH é não saber qualificar
essas limitações reais e imaginárias”,
assegura ela que sugere ao RH que aplique testes práticos
com os deficientes para que eles mostrem o que podem fazer.
Percepção
Uma dinâmica de percepção (a “dinâmica
da chuva”) foi conduzida por Márcia Benevides
às Analistas de RH do Grupo LET para que esse universo
do deficiente comece a deixar de ser totalmente desconhecido
ao profissional de RH. Márcia pediu a todos os presentes
à palestra (nove pessoas sentadas) que fechassem os
olhos e fizessem gestos esfregando as mãos para simbolizar
o vento, estalando os dedos para simbolizar chuva fraca e
batendo com a palma das mãos das pernas para simbolizar
um temporal. Foi impressionante o grau de percepção
ao se realizar a dinâmica.
Para a palestrante a prática das dinâmicas nas
empresas tem ajudado os gestores a quebrarem um pouquinho
esse medo em lidar com os deficientes. Ela acredita que o
grande desafio do RH é quebrar esse medo.
“Nosso foco aqui tem que ser ver a pessoa e não
a deficiência. A pessoa e suas capacidades estão
à frente da deficiência e não o contrário”,
afirma Márcia que, desde 1993, ficou cega de uma das
vistas e quase cega da outra em função de um
erro médico. “Estava no 7º período
da faculdade de Psicologia, mas não esmoreci, continuei,
não tranquei matrícula e ainda fiz curso complementar
de Psicanálise”, conta Márcia.
Convivência com o deficiente é fundamental para
aprendizado
Márcia Benevides, que há 10 anos trabalha com
inserção de deficientes no mercado de trabalho
orientando empresas e que realizou grande trabalho de estruturação
no CIEE Rio (entre 2000 e 2003) para o atendimento aos deficientes,
aborda também aquilo o que chama de “lei da compensação”.
“Temos que perceber que todos nós temos dentro
de nós essa lei da compensação, ou seja,
nos adaptamos facilmente a uma série de situações,
de limitações. Isso sempre acontece em nossa
vida, em tudo”, explica Márcia.
Mais importante ainda do que conseguir se adaptar e criar
uma rotina de convivência: a melhor forma de aprender
sobre o deficiente. A convivência com instrumento facilitador
é o quarto ponto muito importante para o RH.
“A partir do momento que vocês começam
a entrevistar, contratar pessoas com deficiência e trabalhar
com essas pessoas começam a aprender com elas. No início
todo mundo fica nervoso sem saber muito o que fazer. Aja de
forma natural. Se você for, por exemplo, falar com um
surdo, fale olhando para ele, pois eles estão desenvolvendo
a leitura labial. Evite levar a mão ao rosto ou falar
com eles em locais escuros. Para se dirigir a um cego não
adianta falar com ele e de repente sair do recinto sem avisar
a ele; se você não avisar que está saindo
ele vai continuar falando com você”, explica Márcia
Benevides em sua palestra aos profissionais do Grupo LET.
O importante para o RH é não ter medo de fazer
e descobrir os procedimentos em relação aos
deficientes. Por isso, é necessário tirar da
mente a imagem de que o deficiente é um coitadinho.
“Deficiente não vai virar anjo quando for para
o céu. Existe deficiente competente, como existe deficiente
malandro. Uma vez vi um chefe de quadrilha de traficantes
que não tinha um braço. Bem, este não
é um coitado. A convivência ajuda você
a ter a real noção de como tratar o deficiente,
seja qual for a deficiência dele”, esclarece Márcia.
Ouça a pessoa, pergunte para ela quais são suas
reais limitações físicas. De acordo com
a psicóloga, cada pessoa cria seu macete de trabalhar,
se adapta de uma forma. O que importa é isso gerar
resultados. “Essa palestra é mais para refletirmos
sobre nossos valores, sobre os mitos, os rótulos e
ir rompendo aos poucos esses mitos, colocando isso em prática
no setor de RH”, afirma Márcia Benevides.
Adaptação
Há a deficiência de nascença e a adquirida.
No caso da deficiência de nascença; exemplo,
uma pessoa sem um dos braços, é mais fácil
ainda essa adaptação, pois a pessoa nunca soube
o que era ter aquele braço. Mas se uma pessoa tinha
o braço e o perdeu em um acidente ela terá que
passar por um período de adaptação. Mas,
com certeza, se ela está enviando currículo
a uma empresa, já passou por esse período crítico
de adaptação física e emocional. A pessoa
com deficiência geralmente sabe quando está preparada.
Há uma pessoa com paralisia cerebral no IBDD que fala
e se move com dificuldade, mas tem excelente currículo:
é graduada em Pedagogia na UERJ, fez mestrado em Educação
Especial, é inteligentíssima. Mas ela não
consegue passar em entrevistas pela barreira do preconceito,
os RHs não conseguem ver ela de forma natural.
O quinto ponto seria o feedback aos candidatos em processos
seletivos. Todos precisam saber porque foram aprovados e porque
não foram aprovados, com muita transparência.
Os direitos e o esporte
Todo cidadão tem o direito de ir e vir e a pessoa com
deficiência é uma pessoa como qualquer outra,
com direitos de cidadania. Por isso o IBDD propicia ferramentas
às pessoas com deficiência para que elas encontrem
caminhos para exercer sua cidadania, mesmo em nossa preconceituosa
sociedade.
O IBDD também patrocina atletas com deficiência.
Aqui mostramos que as barreiras que os atletas vencem no esporte
são maiores do que a de qualquer escritório.
O esporte também é instrumento de cidadania.
Mas o IBDD não faz assistencialismo. “Trabalhamos
em prol de uma sociedade mais acessível a todos”,
explica Márcia Benevides. O que significa isso? Há
que se ter todas as estações de metrô
e trens, todos os ônibus, todos os prédios comerciais
e empresariais com acessibilidade para deficientes; não
apenas alguns. Não adianta se pensar em mercado de
trabalho sem a garantia do direito de ir e vir.
Para auxiliar as empresas nesse “caminho da acessibilidade”
o IBDD também faz as chamadas “visitas de consultoria
para acessibilidade” nas empresas, avaliando o que precisa
ser alterado e como precisa ser alterado em cada ambiente
de trabalho. “Quando falamos em acessibilidade não
nos referimos apenas ao espaço físico, mas também
a recursos técnicos, por exemplo, eu não enxergo,
mas posso usar o computador normalmente ao usar um programa
chamado Dosvox, que baixo gratuitamente da Internet”,
informa a palestrante. |