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| CULTURA –
“Um Inimigo do Povo” amadurecido |
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Fev-05-2007 |
CULTURA – “Um Inimigo
do Povo” amadurecido
Abordagem do texto de Henrik Ibsen dá espaço a
amplo debate sobre política brasileira com o jornalista
Franklin Martins |
Por Alexandre Peconick (texto) |
Cena do espetáculo teatral “Um
Inimigo do Povo” que tem levado
grande público ao Espaço Cultural Sérgio
Porto |
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Jovens atores interpretando
com maturidade e talento o enriquecedor a ainda atualíssimo
texto do dramaturgo norueguês do século 19 Henrik
Ibsen na peça “Um Inimigo do Povo” estão
encantando o público que comparece ao Espaço
Cultural Sérgio Porto. A casa está sempre cheia.
Afinal, a releitura ousada e criativa torna mais fácil
para o público entender porque a realidade política
de um pequeno povoado localizado escandinavo no distante ano
de 1882 tem ainda tanto a ver com a nossa política
que ainda se sobressalta diante de mensalões, dossiês,
CPIs e outros acordes de nossa política ainda dissonante.
Mais do que abordar questões da interpretação
em si dos personagens este espetáculo teatral da KL
Produções – com apoio da Prefeitura do
Rio e patrocínio da FUNARTE – alia com dinamismo
e autenticidade a cultura com o debate de idéias em
torno da questão política. Após a peça
há abertura para quye todos participem com suas idéias.
“Trazer Henrik Ibsen de novo para os palcos tem tudo
a ver com o atual momento político e econômico
do país que abre muitos espaços para a reflexão.
Nossa idéia é a de cada vez mais tirar a política
dos cadernos de jornais e leva-la ao cotidiano às ruas
e aos evento culturais, onde as discussões são
sempre enriquecedoras, não é a toa que nossos
projetos sempre têm a intenção de ir de
encontro aos interesses da sociedade”, revela Marcus
Vinícius Faustini, Diretor do espetáculo
Depois de apreciar as agruras do Dr. Thomas Stockmann, um
médico que descobre contaminação nas
águas de uma estância hidromineral e desafia
políticos e donos de terra locais ao tentar conscientizar
a população, que tal um debate trazendo estas
temáticas da ética, da defesa de idéias
e da convivência por interesse aos dias atuais? Para
isso, a produção de “Um Inimigo do Povo”
– fruto do programa “Verão e Pensamento”
da Cia. de Teatro e Projeto Reperiferia - trouxe a cada dia
de apresentação uma personalidade de peso para
fazer essa transposição do tema da peça
para o nosso hoje. No último dia 29 de janeiro o SITE
DO GRUPO LET foi ao evento que nos brindou com a presença
do jornalista político Franklin Martins.
Antes de saber o que o ex-analista político da TV Globo
e ex-militante político de movimentos estudantis durante
a Ditadura Militar expôs ao público, convém
entrar um pouco no mundo deste homem que foi considerado o
Shakespeare do Drama Moderno. Se você quer saber mais
sobre o lado pessoal de Henrik Ibsen leia o quadro desta matéria.
Aqui vamos abordar a sinopse da história de “Um
Inimigo do Povo”, peça que desde de sua primeira
leitura provocou muita polêmica. Sempre suscita perguntas
do tipo: Vale a pena um homem sozinho, mesmo tendo convicção
daquilo que diz ser “a verdade “ir contra toda
a sociedade-massa? Opinião pública é
mesmo povo? A versão produzida por Gabriela Saboya,
Tatynne Lauria e Valquíria Ribeiro incita o público
a refletir ao fazer propositais interrupções
com questionamentos a este público.
Lutar contra a maioria é o ingrediente para
se tornar “Inimigo do Povo”
A peça trata da vida de Tomas Stockmann, um pai de
família e médico, nas termas de uma pequena
cidade norueguesa. Após um longo período de
análise, ele descobre que a água das termas
que ele mesmo fundara se encontra poluída e representa
um grave perigo para a saúde de todos os visitantes.
A princípio ele obtém o apoio de pessoas influentes,
como diretores de jornal, para denunciar a gravidade do fato,
porém a notícia prejudicaria os interesses econômicos
da cidade. Então todos os habitantes, inclusive sua
família, começam a repudiar suas idéias,
tachando-o de “Inimigo do Povo”. |
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Alexandre Damascena (de gravata) tem desempenho
impecável como o Dr. Thomas Stockmann |
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Em sua maior obra, Henrik
Ibsen critica a ambição cega pelo poder. Dentro
dessa visão, quando as dificuldades se tornam claras,
é normal a fuga e busca de alvos para serem culpados.
Na história, o prefeito da cidade é o irmão
mais velhor do Dr. Stockmann. A partir da declaração
desses problemas o médico enfrenta a ira dos burocratas
e o desmantelamento de sua família. Além de
lutar contra o grande inimigo: a maioria (compacta?) contrária
e ignorante (alienada) seduzida pelas artimanhas dos altos
escalões políticos. Aos que têm sensibilidade
romântica, o bravo Dr. Stockmann personagem central
da trama, representa o último herói soterrado
pela crescente sociedade-massa.
Na peça, o ator Alexandre Damascena veste literalmente
a camisa do personagem ao olhar literalmente nos olhos do
público como que a querer conscientizá-lo da
real profundidade de seus padrões éticos. O
discurso persuasivo com as mesmas pitadas de sarcasmo dos
dias atuais é usado e abusado pelo ator Francisco Salgado,
que deu vida e graça ao Prefeito da cidade Peter Stockmann.
Tatynne Lauria e Gabriela Saboya emprestam seus talentos naturais
aos personagens Sra. Stockmann (a esposa de Thomas Stockmann),
Sra. Hovstad (jornalista) e Valquíria Ribeiro (na pele
de uma impetuosa Petra, a filha de Thomas). A força
de suas interpretações inspiram os talentos
mais jovens de Fábio Matieli, e Marcio Vitto –
ator convidado pelo seu destaque no evento Mercadão
Cultural (o que é? Leia a matéria no link http://www.grupolet.com/noticias_20060828_MercadaoCultural.asp).
Os atores Anderson Barnabé e Luciano Aires completam
com maestria o elenco.
Segundo o diretor de “Um Inimigo do Povo” os jovens
atores se beneficiam em muito de um trabalho com texto de
Henrik Ibsen. “Atores iniciantes buscam trabalhos maduros
e isso não tem acontecido por exemplo na TV onde os
trabalhos oferecidos têm sido muito rasos”, acredita
Marcus Vinícius Faustini.
Outro diferencial da peça é o seu desfecho,
que não pode ser propriamente chamado de “final”.
Quem está acostumado com um enredo papai-e-mamãe
do tipo “início-meio-fim” se surpreende
de certa forma, pois quando o Dr. Stockmann (Damascena) pronuncia
a frase “me sinto o homem mais poderoso do mundo, mas
o homem mais poderoso do mundo é também o mais
solitário”, a peça se encerra sob aplausos
do público. Não se sabe o que aconteceu com
o Dr. Stockmann. O final propõe um gancho para uma
continuidade ou propõe mais discussões sobre
o tema. Afinal o que Ibsen sempre quis, provocar discussões,
também se iniciou após a peça.
“O Brasil não tem mais padronização
política e isso é muito bom”, Franklin
Martins
E tudo partiu da própria definição
daquilo que é a classe média hoje no Brasil.
Quem realmente é ou não é formador
da opinião pública? Como entender o resultado
das últimas eleições presidenciais
se a imprensa disse pelos quatro cantos que o Lula foi contra
a opinião pública? Estas e outras questões
foram respondidas pelo jornalista Franklin Martins, convidado
especial e um dos maiores especialistas no país quando
o assunto é análise de conjuntura política.
Cabe ressaltar que além das perguntas ao jornalista,
o público fez questão de elogiar a abertura
de um espaço cultural que também se destina
ao debate não de partidos políticos, se A,
B ou C é quem está certo – mas ao debate
sobre a importância de se criar a atualização
de uma consciência política.
Leia algumas das opiniões do jornalista em
palestra e debate com o público de “Um Inimigo
do Povo”
Como definir “opinião pública”
–
“A questão da opinião pública
para um jornalista é crucial e eu tenho orgulho em
dizer que a minha primeira lealdade jornalística
é com a sociedade e não com a opinião
pública. A opinião pública é
simplesmente o que pensa um determinado setor da sociedade
mais mobilizado e ativo naquele momento. Uma definição
popularesca diz que a opinião pública é
uma velha senhora cheia de opinião, extremamente
taxativa, que erra muito, que muda de opinião toda
hora e que não aceita opinião contrária
a dela.”
Sobre o modelo antigo e até então
único de “opinião pública”
–
“Nas eleições 2006 a sociedade brasileira
se deu conta de que aquilo que ela tinha achado que era
a opinião pública deixou de ser ou que a opinião
pública tinha se tornado algumas opiniões
públicas. Desde a Ditadura Militar tínhamos
um modelo padronizado de formação da opinião
pública. Consistia na classe média e classe
média alta repercutindo seus valores e pensamentos
para as outras classes. E isso não foi assim só
em um passado distante, foi também na luta pela Diretas,
na luta contra a inflação, no Plano Cruzado,
no Impeachment de Collor.”
Surgem novas “opiniões públicas”
–
“No processo eleitoral presidencial de 2006 aconteceu
um fenômeno interessante. A classe média citada
acima formulou sua opinião a respeito dos mensalões.
A crise começa em maio de 2005. Forma-se nas classes
A e B a tese de que estávamos diante de uma quadrilha
de corruptos em agosto do mesmo ano. Mas curiosamente esta
idéia penetra na classe C mas dali não passa
para as classes D e E. A classe C se segura. O índice
de aprovação do governo Lula pára de
cair e volta a subir. O que aconteceu? Havia outra opinião
pública que dizia “ah, isso sempre foi assim,
isso já acontecia em outros governos e há
muita politicagem neste meio”. Formou-se essa convicção
na classe C. Então o extraordinário, o novo
desta eleição foi o surgimento de outro centro
formador de opinião. Os marketeiros e o “jornalões”
foram à loucura. Os grandes jornais acreditavam formar
a opinião das pessoas, mas isso não acontece
mais. Mas a imprensa não deixou de ser importante.”
Sobre a nova lógica da política –
A sociedade brasileira é que está se tornando
mais complexa, mais sofisticada. O brasileiro não
aceita mais receber uma coisa pronta, que vem de cima. O
Brasil não tem mais padronização política
e isso é muito bom. Há formadores de opinião
hoje em todas as classes sociais e em todas as regiões.
Afirmo que se alguns partidos não descobrirem como
falar com essas “novas opiniões públicas”
não ganham mais nenhuma eleição.
Sobre como surgiu a nova classe formadora de opinião
–
“Não foi o Presidente Lula quem fez surgir
essa classe C. O Lula se beneficiou dessa classe fruto totalmente
do processo de estabilização da moeda iniciado
com o Plano Real em 1994. A inflação passou
a ser desprezível e o pobre passou a ter mais dinheiro.
O crédito passou a ser mais fácil, os preços
da cesta básica caíram. Cerca de 7 milhões
de pessoas saíram da classe D e E e entraram para
a classe C. E as classes A, B e C se consideraram pauperizadas
e achatadas. Gente que não tinha nada passou a ter
alguma coisa. Quem comia pouco passou a comer um pouco mais
ou a economizar para comprar um tão sonhado fogão.
Esse cara que comprou o fogão, passou a ser o rei
da casa. A estabilização também combinou
com a globalização. O acesso à Internet
e computador também ficou mais fácil a todos
e o número de debates na TV aumentou muito. Ficou
mais difícil para as classes A e B deter informação.
E as classes C e D cresceram muito, não só
em consumo de bens materiais, mas primordialmente de bens
intelectuais.”
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E quem é Henrik Ibsen mesmo?!
Henrik Ibsen o grande dramaturgo que veio da Escandinávia
foi um dos revolucionários do teatro moderno
na medida em que colocou em cena não um mundo
idealizado, povoado de heróis e heroínas
sobre-humanas, mas sim os sentimentos resultantes das
desavenças comuns à maioria das pessoas
da classe média do tempo dele. Frequentemente
apelidado de pai do teatro moderno, diz-se que as obras
de Ibsen revolucionaram o desenvolvimento da técnica
dramática na Europa e nos Estados Unidos da América.
As suas peças continuam a gozar de popularidade
hoje em dia, sendo regularmente levadas a cena em todo
o mundo.
Poucos dramaturgos do século passado nasceram
num lugar tão apropriado para estimular a fantasia
como Henrik Ibsen. Vindo ao mundo em 20 de março
de 1828, numa família de comerciantes bem sucedidos,
sua casa avizinhava-se com a Igreja, com o local dos
castigos públicos, com a prisão municipal
e ainda com um asilo de loucos! Situava-se bem no centro
da pequena cidade de Skien (pronuncia-se Schien) na
Noruega, onde o autor cresceu freqüentando o mercado,
chamado de Stockmanns Gaard (O Jardim Stockmann).
Durante toda a sua infância ele passou ouvindo
o pregão das vendedoras, dos peixeiros e dos
ambulantes que nele circulavam. Aquelas vozes, toda
aquela polifonia popular diária iria servir-lhe
como matéria-prima para suas peças naturalistas
que encantarão e espantarão a Europa durante
50 anos.
Ao darem-se os extraordinários acontecimentos
da Revolução de 1848, ele sentiu que o
drama romântico, artificiosamente sentimental
, estava morto. Seria a sua pena a serviço da
observação psicológica quem doravante
mostraria o caminho a ser seguido. Convicto disso inundou
os palcos com atrações bombásticas.
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Caro internauta, obrigado por sua leitura
e reflita sobre esta frase de Henrik Ibsen:
"Vida significa lutar com
os fantasmas no próprio cérebro e coração"
(Henrik Ibsen) |
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