SITE DO GRUPO LET
– Como você sabe, somos uma empresa de Recursos
Humanos e até por isso vamos começar esta entrevista
para tentar solucionar uma questão que aflige o nosso
mercado. Hoje há dificuldade para as empresas de Recursos
Humanos – contratadas por empresas que terceirizam seus
serviços de seleção – no preenchimento
de vagas técnicas (engenheiros, economistas etc). No
Brasil há muita gente que faz faculdade, mas desses
muito poucos com real domínio das ferramentas técnicas
do mercado. Aqui se valoriza demais o diploma e menos a formação
técnica. Por que ocorrem essas diferenças?
MOISÉS BALASSIANO - Existem várias
dimensões nesta questão. Em primeiro lugar,
existem certos empregos e não existem pessoas que querem
aqueles empregos. Por outro lado, muitas vezes não
há esse encaixe da vaga com o profissional teoricamente
qualificado para ela devido ao viés do selecionador
e/ou recrutador. Quando um selecionador está escolhendo
a pessoa, ele tem o perfil dessa pessoa, tem o perfil da demanda
(do cargo – estabelecido pela empresa) e tem a oferta
das pessoas que querem aquela vaga. O problema é que
geralmente há um nível de super exigência
para algumas vagas, muitas vezes fora da realidade daquele
universo de candidatos para a mesma. Há um mercado
muito grande em termos de mão-de-obra e isso faz com
que a sede das empresas se torne maior e ela fique mais exigente.
Algumas vezes sem necessidade. Muitos cargos em que não
seriam precisos super perfis, têm suas características
infladas, ou seja, não seria preciso tanto para fazer
aquela tarefa. Exemplo: porque um assistente de operador de
câmera precisa de inglês fluente e pós-graduação?!
Esta e outras disparidades geram frustração,
mesmo se as vagas forem preenchidas. A empresa perde tempo,
dinheiro e ainda gera outros problemas. As empresas, os gestores,
seja lá quem for responsável pela construção
das características de cada cargo deve às vezes
baixar um pouco a bola. É claro que às vezes
há má formação do profissional,
que só o valoriza o diploma, mas o recrutador também
deve fazer uma análise, uma pesquisa de seu mercado
de candidatos antes de sair à caça deles. O
erro parte de quem brifa o RH, mas também por vezes
do próprio RH na definição das características
de cada cargo (Nota da Redação: Balassiano fala
com o conhecimento de causa e abalizado pelo Premio ANPAD
de melhor trabalho apresentado no Encontro da Associação
Nacional das Escolas de Pós Graduação
em Administração em 2003, na área de
Gestão de Pessoas, entre outros reconhecimentos que
obteve na área de Recursos Humanos, embora não
seja profissional de RH).
SITE DO GRUPO LET – Mas a universidade também
contribuiu com isso ao influenciar esse profissional na super
valorização do diploma...
MOISÉS BALASSIANO
- Na verdade temos que analisar que uma questão grave
do preenchimento de vagas para as empresas é a de que
hoje existe um fosso, um abismo entre as empresas e a academia
(as universidades e cursos de excelência). A empresa
procura um tipo de profissional o qual nem a academia, e certas
vezes nem os cursos técnicos, estão formando.
Há uma defasagem estratosférica de muitos cursos
que mantém há 20 anos seus currículos
inalterados. Isso gera um abismo porque a pessoa vai aprender
no mercado de trabalho. Então, não é
o diploma que é muito valorizado. Na verdade o diploma
perdeu uma função que deveria exercer devido
ao distanciamento entre academia e mercado. Quando o profissional
faz um estágio no meio do curso universitário
é um horror porque ele percebe a inutilidade do que
está aprendendo na sala de aula. Faltam mais professores
nas universidades que estejam no mercado para poder fazer
esse link. Também falta uma comunicação
maior entre universidade e empresas e ações
no sentido de que ambas construam novos currículos.
A definição do currículo ideal tem que
vir de um entendimento entre mercado de trabalho e academia.
Os profissionais não estão mal formados porque
não têm complementação técnica,
mas porque os cursos de graduação que deveriam
andar junto com o mercado estão em ilhas de conhecimento
defasado. Se o mercado quer pessoas hiper qualificadas porque
diz que as funções assim o exigem, então
esse mercado tem que dialogar com as universidades para trocar
idéias e conseguir em seis, cinco, quatro ou até
em três anos construir esse profissional multi uso e
nos moldes daquilo que se espera dele.
SITE DO GRUPO LET – Esse choque de expectativas
muito se explica se formos pensar na evolução
do mercado de trabalho. Nos últimos 20 a 30 anos este
mercado passou por profundas transformações
que mudaram as conceituações de “carreira
de trabalho” e de “profissão”. Politicamente
tivemos uma abertura, com o fim da ditadura militar e economicamente,
um fato mais recente que acelerou toda essa transformação:
a globalização. Como você analisa toda
essa evolução?
MOISÉS BALASSIANO
- Nos últimos 20 anos tivemos no Brasil a transformação
de um regime fechado para um regime aberto, mas não
atribuo ao período democrático todas as transformações
ocorridas no mercado de trabalho. E um dos exemplos que explica
esse fato é que quando você democratiza tem um
fechamento do mercado em relação à questão
tecnológica. Aquela reserva de mercado imposta nos
anos 80 atrasou o país enormemente. Nós ainda
somos atrasados em relação à boa parte
do mundo em função daquele atraso tecnológico.
Mas de qualquer maneira isso faz parte da transição
para o período democrático. O Brasil começou
a mudar, mas lentamente, ainda com muitas formas de controle.
Na Ásia, por exemplo, não houve nenhum controle
de desenvolvimento tecnológico e com isso o salto foi
muito maior.
Mas as maiores transformações no mercado de
trabalho viriam nos anos 90 quando o então presidente
Fernando Collor foi obrigado a abrir os mercados porque o
mundo estava se abrindo. Se o Brasil não se abrisse
para o mundo iria se afogar. As importações
e a entrada de multinacionais foram avassaladoras. E a partir
dessas transformações o mercado de trabalho
começou a mudar junto. Quando você entre no mundo
dos globalizados o próprio mercado de trabalho responde.
SITE DO GRUPO LET – E de que forma ocorre essa
“resposta” do mercado?
MOISÉS BALASSIANO
- As relações capital X trabalho, patrão
X empregado, começam a mudar radicalmente. Conceitos
como “carreira”, “emprego”, “mercado
de trabalho” começam a ter outras conceitualizações.
O mercado de trabalho era um mercado de empregos, no qual
as pessoas se formavam e queriam ter empregos com carteira
assinada. Hoje há um número pequeno de pessoas
com graduação de terceiro grau e carteira assinada,
e um maior de prestadores de serviço; pessoas que tem
que abrir a sua firma ou comprar nota fiscal para receberem
seu dinheiro. Elas não vão ter emprego, mas
sim trabalho. Isso também é explicado pelo fato
dos altos impostos, os quais empregadores querem a qualquer
custo evitar.
Outro fato que ocorre nesse período é a reconceitualização
da carreira. No passado uma carreira profissional era definida
pelo empregador e programada pela empresa contratante. Hoje
a carreira é individualizada, construída e gerenciada
pelo próprio profissional. Lembro-me que nos anos 80,
ainda antes da febre dos MBAs havia aqui muitos cursos de
pós-graduação com muitos alunos e 90%
deles eram financiados pelas empresas. As empresas investiam
nos funcionários porque sabiam que eles iriam permanecer
por lá. Mas hoje ocorre o movimento contrário.
As próprias pessoas e não mais as empresas ditam
o ritmo das mudanças.
SITE DO GRUPO LET – E como eles “ditam”
suas “carreiras”?
MOISÉS BALASSIANO
- O profissional que se forma e tem à frente de si
um bom mercado de trabalho não fica muito tempo na
empresa. Tenho conversado com vários ex-alunos meus
que querem mudar de trabalho quando encerram um ciclo e terminam
a possibilidade de aprendizado naquela empresa. Eles sabem
que se fizerem a mesma coisa por muito tempo ficam em um beco
sem saída. Então saem da empresa e buscam novos
“aprendizados” (formas de se trabalhar, nichos
em sua profissão, desafios profissionais) para poderem
se manter no mercado de trabalho. Os jovens vestem a camisa
das empresas, mas antes disso vestem a sua própria
camisa. As relações de trabalho passam a ser
utilitárias e frágeis. O profissional, contudo,
perdeu sua força de reivindicação profissional.
Porque a partir do momento em que ele quebra o coletivismo,
deixa de existir a figura da classe de empregados. E isso
fragmentou a força do empregado, porque antes as demandas
eram coletivas, da classe, hoje são individuais.
SITE DO GRUPO LET – Essa tendência de
estar em um lugar hoje, em outro daqui a algum tempo e em
um terceiro daqui a mais algum tempo parece assustador ainda
para muita gente. Isso não gera uma insegurança
do ponto de vista do planejamento familiar partindo do princípio
que não se sabe se o sujeito terá estabilidade
daqui a cinco ou 10 anos?
MOISÉS BALASSIANO
- Certamente gera, mas ele faz um planejamento sem contar
com a empresa, planeja uma carreira solo. E tem que adaptar
a si e todos os seus familiares rapidamente a respeito dessa
situação. Recebo diariamente e-mails me pedindo
aconselhamento para a questão de planejamento de carreira,
porque as pessoas sabem que não podem depender das
empresas. E negociar com uma empresa individualmente é
uma coisa muito complicada.
SITE DO GRUPO LET – O que significou a entrada
com força total do elemento “TECNOLOGIA”
no mercado de trabalho, considerando em um primeiro momento
a entrada dos computadores e o segundo – uma década
e meia mais tarde – da Internet?
MOISÉS BALASSIANO
- A tecnologia mudou completamente o comportamento profissional,
os processos, as estruturas de trabalho, tudo! Em 1988 consegui
um computador montado em casa pelo equivalente hoje a R$ 2.500,00,
sendo este um preço promocional. Pouquíssima
gente tinha computador. Em 1990 quando fui aos EUA fazer Doutorado
tive um choque tecnológico ao ter acesso a programas,
periféricos e Internet dentro das universidades. Foi
um aprendizado fantástico! Essas relações
transformam as empresas. Muitos cargos que não haviam
antes passam a existir. Em meados de 80 o curso de Informática
da PUC no Rio dá um salto muito grande e passa a ser
a opção interessante para muitos jovens com
a sedutora profissão de Analista de Sistemas. Hoje
quase não se ouve mais falar em analista de sistemas,
pois não há mais aquela programação
pesada. Todo mundo migrou para os micro computadores e não
há muita coisa complicada, pois o Microsoft Office
resolve quase tudo. Hoje se a empresa não usa a tecnologia
mais avançada está fora do mercado de trabalho.
Saber usar computador e Internet é tão importante
quanto saber ler e escrever.
SITE DO GRUPO LET – A essas novas tecnologias
significaram mudanças no quadro de profissões
em destaque?
MOISÉS BALASSIANO
– Mudanças radicais. Surgem novas profissões,
novos cargos, novas preocupações. Quem vai tomar
conta do sistema, quem vai construir a home page. A figura
do web designer ganha poder. Cada empresa tem um web master,
um web designer e um responsável pelo gerenciamento
dos computadores. A área de telefonia deu outro salto
gigantesco que exige constante capacitação de
profissionais cada vez melhores. São novas funções
para poder suprir essa grande demanda. E o atual perfil de
cada função e profissão, qualquer profissão,
provavelmente não será o mesmo daqui a seis
meses ou um ano, pois a atualização de ferramentas
é muito veloz. Algumas profissões se transformam,
outras se desmembram e outras simplesmente acabam. A tecnologia
acabou, por exemplo, com figuras como o datilógrafo,
o copy desk, o ascensorista, a telefonista. O correio tradicional
teve sua área operacional muito reduzida. E o mercado
de trabalho tem que se adequar a essa tecnologia.
SITE DO GRUPO LET – Como algumas profissões
tidas como tradicionais se transformam?
MOISÉS BALASSIANO
- Em algumas profissões essas transformações
se chamam desmembramento. O desmembramento é um fenômeno
que ocorre em carreiras de nível superior como, por
exemplo, o Direito. Além de áreas já
conhecidas como a criminalista, trabalhista e outras, hoje
há a especialidade de Direito Ambiental, em grande
demanda no mercado, em função da crescente preocupação
das empresas com projetos de sustentabilidade e da legislação
nessa área ter avançado muito. Há também
mercado forte de Direito Internacional, com profissionais
que entendem da legislação de outros países
para facilitar os sistemas de trocas. Sem falar no Direito
ligado a processos que envolvem casos pela Internet. Na Engenharia,
uma especificidade em rápida expansão é
a Engenheiro de Petróleo, que paga salários
muito bons. Eu diria que todo o engenheiro que trabalha voltado
para a área de energia terá sempre um grande
e versátil mercado. Esta demanda será a cada
dia maior devido à quantidade de desafios novos que
surgem nesta área.
SITE DO GRUPO LET – Mas há outra forma
de transformação neste mercado de profissões
e profissionais que não o desmembramento?
MOISÉS BALASSIANO
– Com certeza. Na própria Engenharia ocorre outro
aspecto já muito comum que é a migração
deste profissional para outras áreas, como Administração,
Recursos Humanos, Economia, Informática, entre outras.
Recebo alunos para cursos de mestrado e doutorado em Administração
que vêm da área de engenharia e também
recebo pessoas da área de Física para fazer
uma graduação de Economia. Hoje a graduação
superior não é mesma coisa que era há
20 anos atrás. Hoje quem busca a graduação
já tem que pensar no nível de especialização
que vai se querer ter. Do contrário, é perda
de tempo.
SITE DO GRUPO LET – Algumas graduações
para profissões não se atualizaram. Dê
exemplo de uma graduação que vem perdendo terreno
para outras...
MOISÉS BALASSIANO
- Economia é uma graduação que está
se desvalorizando. Se você for pesquisar quem são
os maiores economistas da Fundação Getúlio
Vargas, aqueles que alcançam sucesso profissional,
todos eles são formados em Engenharia e depois fizeram
mestrado e doutorado em Economia. Isso acontece porque a Economia
se tornou uma carreira e uma forma de aprendizado extremamente
quantitativa, que apenas lapida uma carreira já moldada.
Primeiro eu moldo a minha cabeça, com conhecimentos
gerais e depois foco em Economia. Então quando os Engenheiros,
que têm uma cabeça quantitativa, quando entram
nesta área (Economia) têm maior facilidade de
lidar. E o mercado requer essa lapidação, pois
tem buscado pessoas com formação ampla.
SITE DO GRUPO LET – E quê tipo de profissionais
o mercado requer hoje?
MOISÉS BALASSIANO
- Infelizmente, boa parte do mercado não está
mais interessada em profissionais que sabem apenas uma determinada
especificidade de sua profissão, porque com essa tecnologia
mudando a cada dia o que você aprende hoje, utiliza
hoje, mas não vai usar daqui a alguns anos. O que o
mercado quer são profissionais com capacidade extrema
de aprender, de se adaptar às novas situações
e que sejam abertos a novidades. Quem não tiver essas
características não vai se dar bem, seja em
que área for, quer no nível privado ou estatal.
Minhas pesquisas indicam que profissional ideal é aquele
que muda na mesma velocidade das mudanças do mercado.
SITE DO GRUPO LET – Mesmo considerando que as
mudanças são constates em um teórico
“mapa de carreiras”, quais seriam aquelas carreiras
que hoje estão em alta no mercado, ou seja, que exigem
maior número de profissionais?
MOISÉS BALASSIANO
- No Estado do Rio de Janeiro está havendo grande demanda
por Engenharia de Petróleo e prestadores de serviço
na área de energia. Inúmeras empresas requisitam
a todo momento profissionais que trabalhem com energia. Além
do petróleo o gás passa a ser o grande chamariz
para engenheiros na área de Santos (SP). Outra carreira
que vejo em alta é a dos profissionais que atuam no
ramo de logística, para alavancar negócios.
Então há um campo fantástico para gestores
de pessoas, engenheiros de produção e administradores
em várias cidades de vários estados.
As áreas voltadas às novas tecnologias também
estão em alta, como todos os trabalhos ligados a computadores,
Informática, sistemas e seus desmembramentos, web designers
etc. E na área de comunicação por outro
lado há uma demanda maior para prestadores de serviço
em expertises diversas do jornalismo. Também há
ótimo mercado nessas áreas como a Administração,
a Psicologia, o Direito, Informática, Engenharia e
Comunicação, que trabalharam bem a questão
do desmembramento, com o surgimento de novas especificidades.
Nestas, o retorno de investimento costuma ser mais rápido.
Outro fator que motivou um aquecimento das profissões
de Fisioterapeuta e Professor de Educação Física
é o aumento da expectativa de vida. Aumentando o número
de idosos e de pessoas de todas as idades investindo em saúde
a demanda de personal trainers, fisioteraputas e profissionais
de Educação Física se torna muito boa
em cidades com boa renda per capita.
SITE DO GRUPO LET - E quando falamos em carreiras
não de nível superior, mas de nível técnico,
quais têm sido as com maior demanda do mercado?
MOISÉS BALASSIANO
– Mais uma vez; são as carreiras técnicas
voltadas para a área tecnológica, como por exemplo,
web designer, web master, programador visual, operador de
telemarketing – esta última muito estressante.
As funções de apoio para as pesquisas tecnológicas
também têm excepcional demanda e não necessitam
curso de graduação. Não há bom
volume de remuneração, mas garantem a sua permanência
no mercado de trabalho e servem como trampolim para profissões
de melhor remuneração. Porque a maior preocupação
para muitos profissionais hoje no mercado é: como é
que eu começo? Teve um aluno meu aqui no Rio que me
disse “professor eu vou até para São Paulo,
mas eu quero começar!”. Uma boa dica de começar
é procurar freqüentar eventos e cursos nos quais
você possa fazer uma boa rede de relacionamentos. Muita
gente faz curso de MBA para se inserir em uma rede de relacionamento.
Entre os objetivos estão o de conseguir um trabalho
ou mesmo o de mudar de um para outro.
SITE DO GRUPO LET – Em nível superior
ou na área técnica a figura do “prestador
de serviços” ou do “empreendedor”
ganha força. Que perfil esse profissional deve ter
para vencer nesse concorrido mercado de trabalho?
MOSÉS BALASSIANO
- O prestador de serviços deve ter um perfil multifuncional.
Nunca deve dizer “não” a uma solicitação.
Ele tem que ter rapidez e facilidade para resolver as coisas,
mesmo questões específicas. Esse é o
seu diferencial. Ele traz sempre soluções e
nunca problemas para as empresas. Outro fato fundamental é
que o prestador de serviços deve obrigatoriamente saber
vender o seu peixe, saber para quem está vendendo e
em qual momento está fazendo isso.
SITE DO GRUPO LET – O jovem, por já ter
se acostumado ao computador e às novas tecnologias
antes de entrar para o mercado de trabalho, assimila com mais
facilidade essa tendência de empreendedor?
MOISÉS BALASSIANO
– Precisamente. Tanto que eu chamo essa nova geração
de “Geração da Tecnologia”. E ela,
nascida nos anos 70, 80 e 90, é privilegiada em relação
às ferramentas do empreendedorismo. Esses jovens estão
entrando com muita força e modificando as atitudes
no mercado de trabalho, porque estão acostumados a
jogar, a criar redes de relacionamento pela Internet. Essas
pessoas têm o perfil interessante, pois são capazes
de fazer muita coisa ao mesmo tempo. Quando uma criança
joga um vídeo game, na verdade ela já está
se preparando para o mercado de trabalho dos dias atuais,
pois exerce várias funções ao mesmo tempo
em um ou dois comandos. E esses jovens que estão chegando
empurram aquela geração antiga para fora do
mercado de trabalho, sem meias-palavras. Tenho inclusive um
projeto de pesquisa nessa linha, que prevê o acompanhamento
de um grupo de jovens entre 5 a 10 anos. A idéia é
a de investigar até que ponto vai a influência
das atitudes deles no mercado de trabalho.
SITE DO GRUPO LET – E esses jovens têm
realmente transformado o mapa de carreiras?
MOISÉS BALASSIANO
– Tanto que por meio de meus estudos, tenho observado
que hoje o ápice da carreira, em muitas áreas
profissionais, que antes era por volta dos 50 anos de idade,
hoje está se deslocando para mais próximo ao
início da carreira. Não é raro hoje você
ter no mercado e em grande empresas, profissionais que chegam
ao ápice de suas carreiras antes dos 40 anos e algumas
vezes próximo aos 30 anos. Também contribui
para que o jovem chegue ao ápice mais cedo a veloz
atualização e aprimoramento das tecnologias.
SITE DO GRUPO LET – Apuramos que empresas como
Shell, Souza Cruz e Exxon Móbil têm há
algum tempo a tradição de rápida promoção
e jovens com menos de 30 anos em postos chave de gerência
em algumas áreas...
MOISÉS BALASSIANO
- Isso é gás novo. O jovem tem que ter essa
perspectiva. Por isso Administração é
uma carreira prospectiva, depende daquilo que você irá
fazer depois de formado. Se o profissional se limitar apenas
ao curso de graduação ele morre. Sua sobrevivência
profissional irá depender das experiências que
for tendo, das complementações. Apenas o diploma
em si é muito pouco. O que vai valer é o que
você agrega ao diploma como experiência profissional
e como cursos complementares: MBAs, pós, Mestrado etc.
SITE DO GRUPO LET - E o nome da faculdade, se for da PUC,
da FGV, IBMEC ou da UFRJ, em nível ainda de graduação,
garante alguma vantagem para colocação no mercado?
MOISÉS BALASSIANO
- Embora não garanta, não dá para negar
que o nome da faculdade traz alguma facilidade. Tenho um ex-aluno
da graduação que se formou em janeiro deste
ano e ainda no primeiro semestre já estava em São
Paulo ganhando salário de R$ 8 mil, começando
a carreira já em uma grande instituição
financeira. É um caso raríssimo, mas existe.
Ainda existem empresas que olham no currículo de qual
faculdade aquele profissional é graduado. Muitos dos
já formados aqui na FGV, PUC, IBMEC ou UFRJ estão
empregados. A questão do nome da faculdade tem peso,
tem valor agregado e tem resposta do mercado.
SITE DO GRUPO LET – Me parece que existem dois
mercados de trabalho: o público e o privado. Enquanto
você e outros igualmente grandes estudiosos apontam
um novo profissional, mais dinâmico e em contrapartida
com menos estabilidade em uma única empresa, ainda
existem pessoas que acreditam que só um concurso público
é o que vai salvar a vida delas. Acham que somente
cargo público garante estabilidade e tranqüilidade
na vida. Pessoas se acomodam ganhando o mesmo salário
a vida toda e não saem dali com medo de serem demitidas
em outro lugar. É o admirável mundo dos “profissionais
de concursos”. O que você pensa sobre isso?
MOISÉS BALASSIANO - O que existe aí
é a formação cultural dessas pessoas.
Essa é a forma delas pensarem, inclusive entre eles
há muitos jovens, que têm aversão ao risco.
Esse perfil não é econômico, não
vem da classe média, baixa ou alta. É um perfil
de personalidade. São pessoas que só pensam
em segurança e mais nada. O ideal é unir a luta
pela segurança aos desafios na vida (empreendedorismo).
Há pessoas concursadas que conseguem ao mesmo tempo
serem empreendedoras. Uma coisa é você ter segurança;
outra é você se acomodar. São duas coisas
diferentes. E muitos funcionários públicos se
acomodam.
E hoje é fácil ser funcionário público
e empreendedor ao mesmo tempo, porque com a Internet qualquer
um pode trabalhar de casa. Na área pública ainda
existe o modelo antigo de carreira, na qual o sujeito entra
em uma empresa e vai ficar a vida toda por lá. Mesmo
com o mercado em mutação existem essas ilhas
que são ocupados pelos servidores públicos que
tem uma pretensa estabilidade, ainda que hoje Petrobrás
e Banco do Brasil tenham taxas de turnover (saída de
empregados) muito mais elevadas do que há alguns anos,
provocadas na verdade pelos próprios profissionais.
SITE DO GRUPO LET – Saindo do “admirável
mundo dos concursados” e do imprevisível (ou
planejavelmente previsível) mundo dos empreendedores,
cite algumas carreiras em baixa, onde é complicado
se investir tempo e dinheiro?
MOISÉS BALASSIANO
– Posso citar inicialmente o Marketing e a Medicina
como duas carreiras saturadas e bem complicadas de se obter
retorno, mas por diferentes motivos. No Marketing há
um excesso de cursos, de apelo, um contingente imenso de profissionais
ótimos trabalhando da mesma forma. Há hoje profissionais
de Marketing hiper preparados, para poucas vagas no mercado.
É necessários que eles também pensem
com carinho na possibilidade de migrar para áreas mais
favoráveis.
Na Medicina a questão de oferta de postos é
até boa, mas embora pareça incrível para
alguns, é uma área complicada e muito difícil
de realização. A relação custo/benefício
é amplamente desfavorável, tanto que hoje há
uma migração de profissionais formados em medicina
para outras áreas. Médicos se transformam em
gestores, em escritores, em economistas. Isso ocorre em grande
parte porque poucos médicos chegam hoje ao topo do
sucesso em suas carreiras. Um grande contingente gasta rios
de dinheiro e passa por inúmeros sacrifícios,
são seis anos, para depois ganhar baixos salários
e trabalhar muitas horas, em situações críticas,
com pouco tempo para descanso.
Além dessas duas carreiras citadas há outras
que, literalmente, ou acabaram ou estão acabando, como
datilógrafo, copy desk (revisor de texto), ascensorista,
caixa de banco. Nesta área bancária houve muito
enxugamento. As carreiras de tecnologia para o setor bancários
estão em baixa. E quem perceber que está em
baixa não pode demorar a ter a ATITUDE de migrar para
outra área. É para a sua própria sobrevivência.
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