ENTREVISTA
Set-25-2006
Marcus Vinícius Freire – Diretor Executivo do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e Chefe da Missão Olímpica Brasileira

“A gestão do esporte de alto nível tem muitas lições importantes para vocês de Recursos Humanos”

Por Alexandre Peconick (texto) – fotos: Divulgação

Marcus Vinícius Freire usa o background em esportes e administração de empresas
para gerenciar equipes diretamente responsáveis pelo sucesso nos Jogos Pan Rio 2007
 
Da fantástica “Geração de Prata” para o comando da missão olímpica brasileira e a direção executiva dos Jogos Pan Americanos Rio 2007 foi um salto gigantesco na carreira esportivo-empresarial do ex-jogador de vôlei Marcus Vinícius Freire. Em entrevista o SITE do Grupo LET este gaúcho de Bento Gonçalves, da sala de reuniões de seu escritório na Accioly Entrenimento conta como a experiência como jogador de vôlei e a vivência de empresário esportivo podem ser muito úteis aos gestores de pessoas. Ele também revela fatos como o de ter convencido Guga a jogar nas Olimpíadas de Sidney em 2000 sem vestir a marca de seu então patrocinador ou o de ter iniciado sua trajetória vitoriosa no vôlei profissional por insistência do ex-técnico e atual presidente do Botafogo.

Como atual Chefe da Missão Olímpica Pequim-2008 e Diretor Executivo do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) – evento que irá de 13 a 27 de julho do ano que vem -, Marcus Vinícius abandonou as quadras em 1990 e desde então atua como executivo, tendo passado por grandes empresas como a Aon, 2ª maior corretora de seguros do mundo, onde foi Diretor de Marketing. Graduado em economia pela Faculdade Cândido Mendes ele também já trabalhou nos bancos Boavista e BCN.

Boa parte de suas lições profissionais Marcus Vinícius tirou da época em que fez parte do histórico Atlântica Boavista – o primeiro time de vôlei profissional do Brasil formado em 1981 – ao lado de nomes como Bernard, Renan, Xandó, Amauri, entre outros. Depois das quadras atuou na praia, em seguida voltou para as quadras quando foi para a Itália. Na chamada Terra da Bota aprimorou suas lições de competitividade, mas em 1990 se viu obrigado a abandonar a carreira de atleta devido a uma cirurgia de hérnia de disco. A dupla visão de atleta e o talento como executivo lhe valeram em 1998 um convite do Presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) Carlos Arthur Nuzman, para assumir o cargo de Diretor de Esporte (Técnico) da entidade.

Radicado no Rio de Janeiro, onde reside desde o início dos anos 80, Marcus Vinícius há 10 anos é comentarista de vôlei do canal de TV a cabo, Sportv (Globosat). Nessa função já participou das coberturas das Olimpíadas de Atlanta (1996), Sidney (2000) e Atenas (2004), várias edições da Liga Mundial de Vôlei, da Copa do Mundo de Vôlei e do Campeonato Mundial de Vôlei. Nomeado por Nuzman como Chefe da Missão Olímpica Brasileira desde 1999, em junho de 2001, quando o Brasil ganhou o direito de sediar os Jogos Pan Americanos de 2007 (no Rio de Janeiro), ele assumiu cargo de diretor na equipe que comanda as ações do evento. Para saber mais é só ler a entrevista abaixo...



SITE DO GRUPO LET – Como começou essa história do atleta que se transforma em empresário e obtém sucesso no gerenciamento de equipes empresariais?


Marcus Vinícius – Comecei na verdade estudando Engenharia em Porto Alegre (RS) na URBES. Meu pai era engenheiro do exército e meus três irmãos mais velhos também eram engenheiros. Em 1981 a Atlântica Boavista montou aquele time fantástico no qual o técnico era o Bebeto de Freitas. Foi o Bebeto quem insistiu com o meu pai e me trouxe do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro. Acabei vindo para o Rio por um acordo que o Bebeto fez com o meu pai conseguindo a minha transferência da URBES para a PUC-Rio. Pouco depois era convocado para a seleção brasileira. Comecei a viajar muito e a engenharia ficou complicada, e só fui me formar, não em engenharia, mas em economia em 1991 depois que retornei da Itália (fui para lá em 1988) ao abandonar minha carreira como jogador de vôlei. Parei de jogar aos 28 anos, em minha melhor temporada, porque tive que fazer uma cirurgia de hérnia de disco. Em função de ser formado em economia fui trabalhar então em uma corretora de seguros de um amigo, da corretora fui para o Banco BCN e em 1995 fui convidado para ser o Diretor Executivo de Seguros do Banco Boavista. Trabalhei 16 anos no mercado de seguradoras, como executivos. Estou parando agora. Nos últimos seis anos trabalhei na 2ª maior corretora de seguros do mundo, a Aon. Lá era Diretor de Marketing e Relações Institucionais.


SITE DO GRUPO LET – Essa vivência foi importante no convite para integrar o Comitê Olímpico Brasileiro?

Marcus Vínicius – Sem dúvida! Em 1998 o Nuzman me convidou para integrar o COB, sendo o Chefe da Missão Brasil - Sidney em 1999. Depois fui nomeado Diretor de Esportes (ou Técnico) do COB. Fui chefe da missão Brasil no Pan de 1999 na Olimpíada de Sidney em 2000 e em todas as competições esportivas daí em diante nas quais o COB estivesse envolvido. E serei também o Chefe da Missão do Brasil em 2007 no Pan do Rio e também nas Olimpíadas de Pequim, em 2008. Então, em função dessa bagagem de executivo, administrador de equipe no banco, na seguradora, na empresa e com equipes de atletas (serão 1000 no Pan e em torno de 500 em Pequim) sou frequentemente convidado a realizar palestras para equipes de executivos e de Recursos Humanos.


SITE DO GRUPO LET – Mas o que faz um Chefe de Missão Olímpica?

Marcus Vinícius - A gente prepara essas missões com viagens precursoras, com montagens de equipes. Só até a China eu já fui duas vezes. Ao final de uma Olimpíada já começamos a prepara a outra. Ao final do mesmo ano de 2004 (em dezembro), quando se realizaram os Jogos de Atenas 2004, já estive em Pequim. E minha última viagem para lá foi há cerca de um mês. Nessas viagens cumprimos alguns itens: o primeiro é o relacionamento com o comitê organizador local. Então você tem que ser bem-sucedido nessa relação para obter um lugar estratégico e favorável para sua delegação dentro da vila olímpica, com espaço para todos, tempo hábil para saída e deslocamento de todos os atletas, quero saber que tipo de transporte eu vou ter que alugar, como será o esquema de segurança. Por exemplo, na área técnica é fundamental saber onde serão deixados os nossos barcos e cavalos. Em Pequim, o Iatismo (Vela) irá acontecer a 690 km do centro urbano. Estudamos todos os tempos de deslocamento em todas as filiais. Haverá também uma sub-vila olímpica, então temos que checar todos os serviços de lá. Comparando com uma empresa é o mesmo processo de uma organização que vai abrir uma filial. Tudo tem que ser estudado antes de se tomar cada passo. O hipismo, por exemplo, será em Hong Kong a três horas e meia de carro de Pequim. Então fizemos todo esse caminho para ajeitar a estrutura para a nossa equipe. Como os cavalos chegam, onde ficam, em quais condições. Como será a nossa comunicação na China, dos atletas com seus familiares, a nossa com os atletas por lá, posso usar rádio, os voluntários de lá falam quais línguas, como são os restaurantes, o que eles vão servir, nossos atletas podem ingerir esta alimentação. Como ficarão os atletas nossos que ficarem fora da vila.


SITE DO GRUPO LET – Existe algum cunho diplomático nesta função pelo fato de você estar representante uma entidade com a bandeira do Brasil em países distantes e eventos importantes?

Marcus Vinícius - Sim e este aspecto é fundamental. Até porque além da vila nós do COB, juntos com os patrocinadores, mais a Embratur e o Governo Federal Brasileiro, montamos a Casa Brasil. Onde essa Casa Brasil irá ficar, que recursos e atrações vão ter para que os estrangeiros se interessem ainda mais pelo Brasil. Tudo isso eu tenho que planejar e suprir. Somos autênticos embaixadores do Brasil durante qualquer evento lá fora e precisamos assumir essa grande responsabilidade. Parece fácil, mas de fácil não tem nada.


SITE DO GRUPO LET - Como chefe da Missão Brasil você também passa aos atletas o fato de que eles também são embaixadores brasileiros? Como eles recebem de você esta responsabilidade?

Marcus Vinícius - Fazemos algumas reuniões pré-jogos. Montamos uma eficiente estrutura desde que o Carlos Arthur Norman assumiu o COB. Há um chefe da missão (eu), três sub-chefes (um médico, um administrativo-financeiro e um técnico), temos alguns profissionais trabalhando com esse grupo, mas cada esporte ou modalidade tem o seu chefe de equipe. Por exemplo, o basquete masculino tem um chefe e o basquete feminino tem outro chefe, e por aí vai. Esses chefes são a minha ligação com os técnicos e atletas. Chegar ao atleta para dizer que ele está usando a camisa errada ou está tendo atitudes incorretas não é a minha função, para isso tem o chefe de cada esporte. É igual a uma empresa, na qual o CEO delega poderes para seus gerentes atuarem junto aos funcionários de cada setor. Isso evita um desgaste desnecessário. Cada chefe de esporte é preparado, treinado por mim para exercer essa função. O que não impede que em casos extremos eu possa ter acesso direto aos atletas.


SITE DO GRUPO LET – Mas o fato de ser o Chefe da Missão Olímpica permite certas prerrogativas não é mesmo?!

Marcus Vinícius - Tenho isso não pelo cargo em si, mas pela minha vivência de atleta. Na Missão Olímpica pelo fato de ter sido atleta, de ter estado do outro lado, tenho a vantagem de ser melhor entendido nas negociações. A experiência esportiva me dá credibilidade junto aos atletas. E meio a uma confusão que tivemos nos Jogos Olímpicos de 2000 esse fator me foi útil para conseguirmos ter garantida a atuação de um de nossos melhores talentos. Em Sidney (Austrália, 2000), com toda a franqueza, cheguei para o Guga (jogador de tênis então duas vezes Campeão em Roland Garros – 1997, 2000) e disse: “Não vai dar para você jogar de Diadora meu querido, porque nós temos um contrato com a Olympikus e todos os demais atletas estão respeitando!” Eu dizer isso para ele é bem diferente de um fazer o mesmo. Ele sabe que eu fui atleta, enfrentei situações parecidas, joguei lá fora igual a ele e que eu briguei igual a ele por aquilo que considerava justo. E nessa conversa com o Guga, com o Larri (Passos, então treinador) e com o irmão dele, contei o meu caso ocorrido em Los Angeles 1984, quando a marca Rainha era a patrocinadora da equipe. Na ocasião o Bernard, o William e o Renan, se não me engano, tinham patrocínios exclusivos com esta marca. Eles iriam ganhar uma grana por fora da Rainha. Então eu e os outros nos rebelamos e colocamos no treino um esparadrapo em cima da marca Rainha. Levamos um baita esporro do Nuzman. Caramba, o Michael Jordan, que era patrocinado pela Nike, fez isso no pódio de Barcelona (1992), colocando a mão em cima da marca concorrente no agasalho do Dream Team. Com transparência, falei para o Guga os motivos pelos quais esse caso ainda não tinha sido discutido antes. E acabamos fazendo um acordo no qual o Guga jogou com o uniforme semelhante em design aos outros atletas, mas sem nenhuma marca, nem Diadora, nem Olympikus. O mais curioso é que dois meses depois, o Guga brigou com a Diadora e assinou com a Olympikus.
 

Acima a “Geração de Prata” do vôlei masculino, responsáveis pela primeira medalha obtida por esse esporte em Jogos Olímpicos (Los Angeles, EUA, 1984). Da direita para
a esquerda, Marcus Vinícius Freire é o quarto jogador com a medalha de prata no peito
 
SITE DO GRUPO LET – Então há muitos paralelos entre gerir equipes esportivas e equipes empresariais?

Marcus Vinícius - Sem dúvida que sim. E para mim gerir equipes empresariais se tornou mais fácil na medida em que eu participei ativamente de todos os lados. Primeiro, como jogador de vôlei, eu fui peça das equipes. Hoje na vida empresarial saber trabalhar bem em equipe, tendo o conhecimento de todas as peças (funcionários) em jogo é vital para sua sobrevivência. E eu participei de um esporte que considero o mais coletivo entre todos. No vôlei quando eu recebo um saque de manchete não posso fazer mais nada. Tenho que ter alguém comigo que dê um segundo toque para que eu possa dar o terceiro, se for o caso. Em toda a minha vida esportiva tudo sempre foi feito com a equipe, em função da equipe, para os méritos da equipe. O segundo fato que me ensinou muito na vida empresarial foi que eu vivi dentro do esporte coletivo a transição do amador para o profissional. Fiz parte da primeira equipe profissional do Brasil em um esporte que não fosse o futebol. Em 1981 foi montado pelo Antônio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, o time da Atlântica Boavista. E ele também forçou para que a Pirelli montasse um time afim de que houvesse competitividade. A seleção brasileira era dividida com seis jogadores em São Paulo e seis no Rio. Conheci todos os erros e acertos dessa transição do “ser amador” para o “ser profissional” e acumulei uma grande experiência depois como profissional na Itália. Quando voltei da Itália e fui adaptar esses ensinamentos para a vida executiva, ficou muito mais fácil entender como funciona uma empresa, fosse ela nacional ou multinacional. E em minha trajetória fui depois trabalhar em empresas com perfis completamente diferentes; nacional, francesa, americana, multinacional. E essas experiências eu pude trazer para o comando da Missão e para o Comitê Organizador do Pan.


SITE DO GRUPO LET – A premissa de que o americano tem uma cultura, o francês tem outra e o italiano outra bem diferente e que não podemos fazer aqui o que eles fazem lá, não é bem assim nas empresas e organizações brasileiras. Podemos agregar valores de outras culturas muito distintas em nossas organizações?

Marcus Vinícius - Podemos sim agregar valores e aproveitar o que as outras culturas têm de melhor para nos oferecer, adaptando-as ao nosso jeito de fazer (modus operandi). Aqui faço a minha primeira comparação; como eu monto um time como a Atlântica Boavista, que tinha três gaúchos, que eram eu, Renan e Paulo Roese; três paulistas, que eram Amauri, Xandó e Léo e meia dúzia de cariocas, que eram Badalhoca, Bernard, Barnardinho, Fernandão e cia? Tínhamos gostos diferentes; mas tivemos que nos entender para só então formarmos um time. Então a mesma situação você enfrenta quando uma empresa tem fusões, aquisições e vendas para outras empresas. E eu vivi isso no universo empresarial. Temos que nos adaptar e rapidamente. No vôlei, o Atlântica Boavista acabou de repente, aí fizeram o Flamengo Petrobrás, joguei ali um tempo e depois fui para a Itália, sem falar uma palavra de italiano. Em seis meses na Terra da Bota, já era eu quem falava com o árbitro por ser o capitão do time. Esse rápido poder de adaptação no esporte, somos camaleões mesmo, vale hoje 100% para o meio empresarial.


SITE DO GRUPO LET – Mas como se consegue manter um alto nível de competitividade esportivamente e empresarialmente falando com tantos detalhes e tantas diferenças?

Marcus Vinícius - O primeiro ponto é o de saber formar equipes com alto padrão de performance, colocando as pessoas (ou profissionais) certos nos lugares certos. Não adianta você inventar um cargo em sua empresa só para fazer uma boa ação para aquela pessoa que está precisando ou inventar que determinada pessoa que não tem aquele skill (habilidade específica – competência) adequado para aquela função quando não tem. Atitudes como esta vai prejudicar muito o seu negócio. No esporte também não podemos achar que determinado cara vai ser o melhor chefe de equipe só porque foi um dos melhores atletas. Pode até acontecer que sim, mas um fator não determina o outro. Nós fomos medalhistas olímpicos em 1984 nos Jogos de Los Angeles. Se você me perguntar quem eram os mais fracos tecnicamente entre os 12 jogadores, eu certamente estou entre eles. E nem por isso os mais fortes vieram a ser chefes da Missão Olímpica, 20 anos mais tarde. Cada um tem o seu skill. O meu ali em 1984 era apenas o de fazer determinadas funções. Eu sabia que nunca seria titular, mas também sabia que tinha certas funções no grupo vitais para o sucesso da equipe. Por tudo isso, o mais importante de quem está nos cargos mais altos é conhecer a fundo as habilidades de cada um de seus comandados para usá-las ao máximo. Somente assim a equipe terá alta performance independente do nível de exigência, seja esta equipe esportiva, ou seja, de uma gerência em qualquer tipo de empresa. E devemos primar sempre pela qualidade independente da situação. Digo a mesma coisa por todas as empresas onde passo e por onde passei; você tem que jogar de forma diferente; com relação a uma empresa isso significa na relação com cada cliente. Temos que escalar o melhor time, treinar da melhor forma, entrar com a máxima disposição, esquecendo em se guiar apenas pelo talento e...mesmo assim pode acontecer de perdermos este “jogo”. Isso ocorre em uma concorrência, em uma licitação. E temos que levantar a cabeça e buscarmos sempre alternativas melhores ainda se não vencermos este “jogo”. Eu posso fazer um jogo praticamente perfeito e perder. É que o concorrente também foi perfeito e me superou por um detalhe. Acontece e não é o fim do mundo. Nem dos meus negócios. Não pode ser.


SITE DO GRUPO LET – Vejo muito em você uma preocupação comum a atletas que se transformam em empresários de sucesso: a constante atualização de informações e de treinamento. Essa semelhança ocorre porque quando atleta você era muito cobrado em performance. E no meio empresarial quem não investe em constante atualização perde em performance e em mercado. Você concorda com isso?

Marcus Vinícius - Concordo demais com isso e a minha história já como executivo comprova esse raciocínio. Até em casa a minha esposa às vezes comenta: “Ih, você já está há cinco anos nessa empresa!” Porque eu acho que hoje em dia ninguém está sendo preparado para trabalhar como o meu pai, o seu pai, os nossos avós, ou seja, fazendo carreira em uma única empresa, com carteirinha assinada, como todos imaginam. E eu já digo aos meus filhos: “A chance de algum de vocês trabalharem por mais de cinco anos na mesma empresa é nenhuma!” Você, seja quem for, tem que sempre dar o seu máximo naquele “time” ali, vamos chamar de “time”, a empresa na qual você se encontra no momento; mas que possivelmente, você tem que estar sempre preparado para atender a demandas que virão de fora dessa empresa e que te levarão a outros destinos. Sou o maior incentivador dos meus funcionários trocarem de emprego. E é justamente aí que está um dos maiores problemas que vejo no universo dos executivos do Brasil: o fato dos chefes muitas vezes tentarem travar seus funcionários tanto para subir na empresa como para sair dela. Outro problema: não vejo muitos gerentes ou diretores preparando seus sucessores. Penso que esta preocupação com a sucessão nas empresas deve ser cada vez maior; porque as pessoas que se achar “necessárias”. É uma mesquinhez o chefe não querer preparar ninguém com o medo de perder o lugar, quando o pensamento deveria ser exatamente ao contrário, ou seja, vou preparar alguém para ser ainda melhor do que eu, para elevar o nível da minha equipe de funcionários, da minha empresa, porque o mercado está exigindo isso. Devemos mudar a mentalidade de quem manda nas empresas. A gestão do esporte de alto nível tem muitas lições importantes para vocês de Recursos Humanos


SITE DO GRUPO LET – Que exemplo podemos dar em referência a este tipo de mentalidade que já existe no esporte?

Marcus Vinícius - O jogador que atua como líbero do time é o exemplo perfeito disso. Baixinho, não saca, não ataca, entra de vez em quando. Mas esse jogador é fundamental para o ataque brasileiro, porque é o responsável pelo passe e por neutralizar a potência do ataque adversário quando a bola passa pelo bloqueio. Com a velocidade do jogo atual, os atacantes só funcionam se o líbero fizer a sua parte.


SITE DO GRUPO LET – Mudando um pouco o foco de nossa entrevista, gostaríamos de saber o que o evento Jogos Pan Americanos Rio 2007 vai agregar à cidade do Rio de Janeiro em termos de valores para o mercado de trabalho?

Marcus Vinícius - Temos falado muito que esse Pan não é só do Rio de Janeiro, mas do Brasil. Ele está trazendo em primeiro lugar credibilidade internacional para o país inteiro. Claro que reforça a imagem do Rio como porta de entrada do Brasil. Depois este Pan dará um up grade na qualidade profissional de pessoas que lidam com o esporte. Muitas pessoas visualizam apenas aquelas duas semanas e meia que duram as competições do Pan. Em termos de abrangência o evento não se restringe a isso. Vivemos o Pan por cinco anos desde a sua preparação; nos pré-eventos dos vários esportes, nem todos no Rio de Janeiro. O Brasil está ganhando um up grade nacional na realização de eventos. E não podemos desprezar a parte de infra-estrutura. Estamos deixando para a cidade e para o Brasil um ginásio de 18 mil lugares que não existia; um parque aquático no autódromo que não existia, um estádio olímpico que pode servir para atletismo e futebol com capacidade para 45 mil espectadores em uma área revitalizada economicamente como o bairro do Engenho Novo, que não existia, um velódromo que não existia, um centro esportivo em Deodoro com qualidade que não havia no Brasil. Todas essas instalações terão que ser administradas para se tornar rentáveis. Isso gera empregos a muito longo prazo. E isso gera potencial para muitos eventos que precisarão contar com muita mão-de-obra. E aqui eu trago um dado interessante. A cidade chinesa de Pequim está loucamente em obras para abrigar os Jogos Olímpicos de 2008 e para deixar tudo em ordem, 200 mil operários estão trabalhando. Nós temos aqui apenas na construção da Vila Olímpica, 2,7 mil operários.


SITE DO GRUPO LET – Embora não seja esta exatamente a Como está a preocupação com a segurança para o evento que chamará a atenção de todas as Américas em 2007?

Marcus Vinícius - Os Jogos irão durar 17 dias. Tenho uma preocupação muito grande com a segurança, principalmente com a vinda de uma delegação norte americana, de cubanos e de autoridades até mesmo do COI (Comitê Olímpico Internacional). O esquema de segurança será centralizado na Secretaria Nacional de Segurança, ligada à Secretaria de Justiça. Vai ser um comando unificado com a polícia federal e as forças armadas (exército, marinha e aeronáutica), mas talvez não seja tão ostensivo como foi o da RioECO-1992 (Conferência Mundial do Meio Ambiente).


SITE DO GRUPO LET – Todo país e toda cidade que realiza grande eventos, tem uma grande “bandeira”; um lema. O da Copa do Mundo de Futebol da Alemanha, recém encerrada, foi a de reunificar definitivamente o país. O de Pequim (Jogos Olímpicos) é o de mostrar a China para o mundo. E qual é a grande bandeira dos Jogos Pan Americanos Rio 2007?

Marcus Vinícius - É a de confirmar que o Brasil pode trazer para si os grandes eventos esportivos mundiais, como são os casos da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e o dos Jogos Olímpicos Rio 2016. E vamos, com o apoio da iniciativa privada, deixar o Brasil pronto para estes dois outros grandes eventos sem dever nada a ninguém.


SITE DO GRUPO LET – Para finalizar deixe aqui uma mensagem ás pessoas que irão trabalhar nos Jogos Pan Americanos Rio 2007...

Marcus Vinícius - É meio dura a mensagem. Quem é convidado para trabalhar em um evento no qual está se mostrando a cara do Brasil deve pensar o seguinte: eu não fui convidado para o evento. Essa é a frase que digo aos meus companheiros de delegação. Você não está convidado, você está a trabalho naquele evento. Não é uma diversão ou um passeio. O mundo verá no seu estilo de trabalhar a “cara do Brasil”. E devemos mostrar uma “cara” séria e profissional.
 
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