Vou dividir hoje com os nossos internautas informações
a respeito de um ser humano de primeiríssima grandeza:
o gestor de pessoas Luiz Carlos Cerreia Campos. Profissional
nota mil, pai de família exemplar e amigo imprescindível
que, fisicamente, nos deixou há exato um ano, no
dia 18 de setembro de 2005.
Os argumentos abaixo ajudarão vocês, que não
conheceram o Luiz Carlos, a entenderem o porquê do
artigo do mês de setembro estar sendo dedicado exclusivamente
a ele. Aos que conheceram o Luiz Carlos peço que
unamo-nos para relembrar com carinho o seu importante legado.
Eu, Joaquim Lauria, fui um privilegiado por ter convivido
com o Luiz Carlos Campos por praticamente 35 anos. Conheci
o Luiz Carlos no início de sua vida profissional
quando ele trabalhava na RJR Refrescos (Coca-Cola). Convivi
com o profissional e com o homem Luiz Carlos Campos com
a mesma intensidade. O Luiz foi uma pessoa ímpar,
fora de época, ou seja, um homem e profissional muito
além de seu tempo. Quando nos conhecemos eu trabalhava
na CCPL. Vivíamos no Rio de Janeiro no início
dos anos 70 a época da construção e
da instalação da Ponte Rio-Niterói,
um importante marco para a economia do nosso estado. Paradoxalmente,
justamente por causa dessas obras, no nosso mercado de trabalho
em particular convivíamos com um problema: a acentuada
falta de mão-de-obra masculina. Então as empresas
próximas, a CCPL, Jornal do Brasil, Gillete do Brasil,
a Coca Cola, Helena Rubinstein, entre outros, se reuniram
para lutar pelos interesses em comum. Fizemos o Grupo ÍRIS
(Intercâmbio de Relações Industriais).
Foi a partir dessa época que partimos para um desafio
novo: contratar mulheres para trabalhar na área industrial.
Nós fomos ao Ministério do Trabalho para conseguir
abrir alguns precedentes para contratar mulheres, o que
na época era um tabu enorme em todo o país.
Não se entendia que a mulher poderia trabalhar na
área industrial. A participação das
mulheres engrandeceu demais essas empresas desse grupo.
E desse momento histórico para o mercado de trabalho
nasceu a minha amizade com o Luiz Carlos Campos. Fizemos
por este grupo viagens ao exterior fantásticas para
estudos de relações industriais. Mas o maior
legado desse grupo foi ter conhecido o Luiz Carlos. A gama
de conhecimentos e de experiências que acumulei com
ele e por meio dele tem para mim um valor inestimável.
Para começar, eu nunca vi o Luiz desejar mal a ninguém.
Quando alguma coisa não o agradava ou não
o deixava satisfeito, ou quando algo quebrava os princípios
da ética ele simplesmente se afastava porque não
conseguia fazer mal a ninguém. Ele procurava ajudar
a todos, de um pequeno funcionário de uma empresa
a um alto executivo.
Cito um exemplo ocorrido há uns quatro anos para
que possamos dimensionar esse altíssimo grau de altruísmo
que ele tinha. Estávamos em um evento da ABRH-RS
(em Porto Alegre) e fazia parte do Conselho Deliberativo
daquela entidade um Curador da VARIG. Uma pessoa mais idosa
que, na reunião, demonstrou passar por um momento
muito difícil em sua vida pessoal. Após a
reunião o Luiz o procurou e começou a bater
um papo lhe dando vários conselhos. Aquele papo acabou
se alongando mais do que devia e acabamos (eu e o Luiz)
perdendo o vôo de volta para o Rio de Janeiro. Alguns
dias depois do ocorrido esse senhor me ligou (porque fui
eu quem fez a interface entre ele e o Luiz Carlos), dizendo
que o Luiz Carlos tinha gravado uma fita cassete com frases
e situação da vida. E este senhor ficou impressionado
como um homem muito mais novo do que ele (o Luiz Carlos)
poderia dizer coisas tão impressionantes e que ele
nunca tinha ouvido antes. O Luiz Carlos Campos era uma pessoa
diferenciada, dessas personalidades que nunca haverá
outra igual. Eu conheço muito os filhos dele e digo
a todos eles que “pai e figura humana igual ao deles
nunca haverá”.
Outro dado importante a lembrar sempre que o nome Luiz
Carlos Campos me vem à mente é a magnífica
capacidade que ele tinha de antever panoramas profissionais
e de trazer para o nosso mercado de trabalho sempre as mais
modernas práticas. Sonhar pequeno nunca foi com ele.
Seus vôos eram sempre os mais altos possíveis
e, até por isso, nas gestões dele ABRH-RJ
(1998 a 2003) e ABRH-Nacional (2004 e 2005) deram enormes
saltos qualitativos.
O Luiz era um estudioso incansável. Em 2001 ele
me procurou e disse que precisávamos nos reciclar.
Então ele foi fazer um MBA em Marketing na Coppead,
UFRJ. Despontou como um dos melhores alunos. Estudava e
lia demais, estava antenado com tudo o que acontecia na
gestão de pessoas do mundo inteiro. Ele sempre freqüentava
todos os congressos da ASTD nos Estados Unidos e falava
inglês fluentemente. Mais do que isso, tinha o dom
também de falar para pessoas em todos os níveis
culturais as palavras e frases certas, nas horas certas.
E eram sempre frases que você não conseguia
imaginar de onde saíam. Quem trabalhava com o Luiz
Carlos Campos estava sempre motivado porque ele jamais deixava
alguém de sua equipe sem uma palavra de ânimo,
de carinho, de afago.
Lembro que quando o Luiz estava para assumir a ABRH-Nacional,
ocorreu um fato que precipitou o início de sua gestão
antes mesmo de tomar posse. Em agosto de 2003 já
se sabia que ele assumiria no dia 1º de janeiro de
2004. Ainda em 2003 uma tragédia se abateu sobre
Cingapura, país que sediaria o Congresso Mundial
de RH em junho de 2004. Com este ocorrido o Luiz Carlos
Campos aceitou dois desafios fantásticos: primeiro
foi o de trazer o congresso para o Brasil com menos de um
ano de preparação e o segundo desafio, tirar
o evento de São Paulo e trazê-lo para o Rio.
O Luiz Carlos foi o primeiro presidente da ABRH-Nacional
não-paulista a quebrar paradigmas. E o fez no peito
e na raça, com a ajuda de amigos também. Em
setembro de 2003 me lembro de uma reunião que tivemos
com o presidente do Riocentro e com o Prefeito do Rio, César
Maia. Naquele dia se uniram a capacidade de negociação
do Luiz Carlos à capacidade de visão do prefeito
carioca, que colocou o institucional (a imagem positiva
do Rio de Janeiro) á frente do fator financeiro.
O Rio fez o CONARH e o Congresso Mundial no mesmo local,
no mesmo mês de junho e no mesmo ano de 2004. Trouxemos
pensadores fantásticos do exterior, pensadores maravilhosos,
naquele que sem dúvida foi o maior evento de RH (ou
gestão de pessoas) já realizado aqui no Brasil.
E foi um trabalho incansável do Luiz Carlos. E nos
anos em que convivemos lado a lado, poucas vezes o vi trabalhar
tanto como nos meses e dia anteriores aos dois eventos que
marcaram época.
Dias depois do Congresso Mundial realizado no Rio de Janeiro
ele me convidou para tomarmos um sorvete – ele adorava
tomar sorvete – com a intenção de avaliarmos
o Congresso. Foi aí que ele me confessou: “Olha,
nem eu esperava tamanho sucesso como vimos nestes dois eventos”.
E foi mesmo! Trouxemos 8.500 pessoas, uma delegação
de quase 3 mil pessoas do exterior. Graças a Deus
naquele ano não tivemos problemas de segurança
no Rio de Janeiro. Acho que o Luiz tinha uma estrela que
iluminava os caminhos dele. Tudo dava certo quando ele botava
a mão.
O legado do Luiz Carlos Campos foi para todos nós
de Recursos Humanos inesgotável. Ele tinha frases
geniais. Era uma figura humana que levava a ética
como a palavra número um (1) da vida dele e, até
por isso, jamais se usou de qualquer cargo para tirar qualquer
tipo de vantagem. Também por isso ele é o
meu guru. Tenho um retrato dele em meu escritório
e olho para este retrato todos os dias antes de começar
a trabalhar. É uma inspiração.
Se o Luiz fosse vivo e fizesse uma palestra no Congresso
Nacional muitos parlamentares certamente iriam renunciar
porque não conseguiriam se enquadrar naquilo que
ele fala sobre ética. Esse foi o grande legado que
ele deixou. Hoje eu quando penso no Luiz, penso com alegria,
porque ele era um cara que adorava viver com alegria.
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